quarta-feira, dezembro 30, 2009

"A velha tinha um gato"




Chama-se "Uma velha tinha um gato", mora na Rua dos Canastreiros, na Ribeira do Porto e abriu há um mês. E dificilmente aquele bar poderia ser mais charmoso. Logo à entrada, um sofá vermelho anuncia o bom augúrio. Mas antes (ou depois) disso, vale a pena conhecer a proprietária, mulher de teatro, dos tempos de uma cidade que se perdeu, uma mulher extraordinariamente bonita, actriz capaz de nos fazer perder as horas (e as cheias) na conversa. Depois, lá dentro, ouve-se muito boa música, lê-se o I e fuma-se alegremente. Calorosamente. De repente, faz lembrar um pub (e já ninguém diz pub) dos anos 80, mas com um update que lhe dá mais luz, mais glamour. No fim da noite, estamos em casa.

Super Bock a mais dá nisto...

Cobre a fachada do Mercado Ferreira Borges, no Porto. E mente: Aqui bebe-se cultura. Poderia haver algum slogan mais irónico?

domingo, dezembro 27, 2009

Entrevista para ler, reler e guardar


Martin Avillez Figueiredo bem avisa logo no editorial do I que a entrevista a Tolentino Mendonça, publicada ontem, é iluminada. E é mesmo. Vale a pena, muito a pena, ler o editorial, e a entrevista conduzida por Maria João Avillez. Alguns excertos:

Eu sinto que a procura de Deus é a dimensão mais forte da minha existência. Em última análise é dessa procura - humilde, inacabada, sempre a ser refeita - que me alimento. Vivo na sua expectativa, deslumbro-me com a revelação surpreendente e polifónica da sua presença, sofro e interrogo o seu silêncio... Com a consciência profunda, porém, de que estes contornos mais intensos ou mais frágeis da minha procura não são os mais importantes. Importante é, nas horas da graça ou naquelas de densa escuridão, saber-se buscado, saber que é Deus quem nos procura...

Uma amizade não começa no momento em que é explicitada. Para chegar a ser explicitada tem primeiro de crescer em silêncio nos corações, de se construir lenta e misteriosamente em múltiplos encontros, de se consolidar num tráfico íntimo de sinais... Há uma frase de Blanchot que explica deste modo a forma como todos experimentamos a amizade: "Já éramos amigos e não sabíamos." A amizade com Deus é a mesma coisa. Quando é que Ele se tornou obrigatório? Tenho de responder, para ser verdadeiro: muito antes que eu o soubesse.

O nosso encontro com Deus é, nesta nossa condição histórica, um encontro mediado. Eu diria que, no meu caso, esse encontro foi decididamente mediado pelo espanto. Descubro-me enamorado de um espanto fundamental. Não consigo mais tirar dali os olhos ou o coração. Não é só o assombro perante "a espantosa realidade das coisas", de que Fernando Pessoa falava, e que em si mesmo já é tanto! O maior assombro é pela vocação divina do homem que está em nós inapagavelmente inscrita. Quando o que sabemos de Deus nos constrange, nos cerca, nos pressiona, nos compromete, nos deixa sem saída (e estou a citar palavras de dois grandes crentes, S. Paulo e o profeta Jeremias), então percebemos que é connosco que Deus está a falar.

Há uma oração que aprendi, e dizem- -me que se reza em Taizé: "Senhor, estou aqui à espera de nada." Com o tempo, esta oração tem-se tornado a paisagem de fundo do meu caminho espiritual. Acho que posso dizer que vivo na dependência de Deus. Jesus Cristo é o objecto da minha fé. Com todas as minhas falhas e incertezas, procuro que a sua humanidade se torne inspiração para a minha. Mas peço a Deus a liberdade e a gratuidade necessárias ao amor. Eu não creio para que Deus me facilite a vida ou a resolva por mim. Os místicos ensinam que "a rosa é sem porquê".

Reeleição de Cavaco Silva aparentemente tranquila

Para Cavaco Silva é sempre cedo de mais para anunciar a recandidatura a Belém, luxo a que só deverá entregar-se até meados de 2010. Até lá, quanto mais souber conter a animosidade, melhor. Para evitar surpresas.

É coisa a que já nos habituámos: Cavaco Silva fala de si próprio na terceira pessoa quando não quer falar. "O presidente da República não deve pronunciar-se sobre isso" foi talvez a frase que mais vezes proferiu durante os últimos cinco anos. Apesar disso, em Agosto deste ano, à boleia das alegadas escutas de que Belém estaria a ser alvo, encetou um tipo de discurso que o fez descer a pique no ranking de popularidade. Foi também a confirmação do início do fim da "cooperação estratégica" com o Governo. A haver uma recandidatura, Cavaco Silva já não poderá, por isso, insistir na fórmula que entretanto se corrompeu, defendem os especialistas ouvidos pelo JN. Mas ainda pode apostar em ser "o garante de estabilidade" do país. E nem Manuel Alegre, que corre o risco de ser "o derrotado mais votado de sempre, até com uma votação superior a um milhão de votos", deverá beliscar a sua reeleição, acredita o comentador político António Costa Pinto.

"Nos últimos meses, o presidente da República (PR) arriscou muito, teve várias intervenções menos felizes e, com isso, a sua imagem sofreu um forte abalo. É impossível repetir a bandeira de cooperação que usou na última campanha presidencial", afirma José Manuel Leite Viegas, investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia. No entanto, o chefe de Estado já terá percebido o jogo em que entrou. "Quanto mais atritos houver entre o Governo e a Oposição, mais o PR poderá afirmar-se como referencial de estabilidade. Neste jogo, ganha quem for mais contido, porque o país não perdoará quem aparecer aos olhos da opinião pública como o desencadeador de ataque de uma situação que, já de si, é aguda. Quem alimentar o conflito será penalizado, e ele já percebeu isso."

José Adelino Maltez concorda, embora não veja "na claríssima conflitualidade entre Cavaco e Sócrates uma coisa necessariamente negativa". Além da "boa educação que ambos demonstraram ter esta semana na troca de cumprimentos de Natal" - e o politólogo ressalva que refere o episódio "sem ironia" -, "o conflito prende-se mais com diferenças de carácter do que de políticas". Na política europeia, na segurança e na defesa nacional "houve sempre grande coincidência", recorda. Significa isto que voltaremos a ter um estado de graça entre os dois órgãos de soberania capaz de potenciar uma candidatura à Direita, como aconteceu em 2005? Não, responde Maltez. Acordos institucionais? Também não. Mas podemos ter, avisa, "aquilo que Cavaco Silva deseja no seu íntimo: um Bloco Central. Para tal, basta que Sócrates saia do PS e Ferreira Leite do PSD, o que é muito provável no próximo ano", defende. "Nesse cenário, Cavaco voltaria a ter uma excelente vitória de cooperação estratégica e o caminho livre para um segundo mandato tranquilo."

Mesmo que isso não venha a suceder, "a campanha de Cavaco Silva será fácil", insiste José Adelino Maltez. E António Costa Pinto não encontra motivos para que não seja assim. "Ele tem todas as vantagens do seu lado: pode ser o último a anunciar a candidatura, o episódio de Agosto será rapidamente esquecido e se o conflito se prolongar até Dezembro de 2010 (véspera de eleições), o povo terá tendência a escolher o que já conhece, porque vê nisso um elemento de estabilidade". Além disso, "para as presidenciais conta mais a imagem do candidato do que as suas propostas". Portanto, mesmo que aos olhos dos portugueses Cavaco possa parecer demasiado conservador - é contra o divórcio, o aborto e o casamento homossexual -, isso, no fim, contará muito pouco". A reeleição do actual PR, concordam todos, estará mais nas mãos dos outros, nas falhas dos outros, do que dele próprio: "A ele, basta-lhe capitalizar o lugar e reagir cada vez menos às guerras com o PS e com Sócrates."

quinta-feira, dezembro 24, 2009

terça-feira, dezembro 22, 2009

Diálogos pueris

- O pai foi para o Jesus, explica-lhe a mãe.
- Porquê?, pergunta a menina de três anos.
- Porque tinha um dói-dói.
- E quem lhe fez o dói-dói?
- Foi o Jesus.
- O Jesus é mau?
- Não, é bom.
- Então, foste tu que lhe fizeste o dói-dói?
- Já te disse que foi o Jesus. Mas o pai está no céu. Podes falar com ele sempre que quiseres.
- O Jesus tem telefone? Lá no céu?
- Não, não tem. Mas basta olhares. Ele ouve o que dizes.
- E como é que eu ouço o que ele diz?
- Ouves aí dentro, com o coração. Onde quer que estejas, o pai consegue ver-te e ouvir o que dizes.
- Mas o céu é muito longe, não é?
- Pois é.
- Mãe, o pai também consegue dar-me banho lá do céu?
- Não, isso não.
- Porquê? Porque já não gosta de mim?
- Claro que gosta de ti. Gosta muito. Mas o pai teve que ir embora.
- E quando volta?
- Não volta.
- Porquê?

segunda-feira, dezembro 21, 2009

domingo, dezembro 20, 2009

São Bento e Belém: “guerra de fracos”


Desde o estatuto dos Açores que a relação entre Belém e São Bento não voltou a ser a mesma. José Sócrates e Cavaco Silva recusam admitir o divórcio, mas entre eles tudo faz faísca. Até quando pode um país em crise aguentar este conflito?

Parece uma daquelas intermináveis séries de televisão em que as temporadas sucedem-se ininterruptamente mas não acrescentam nada às anteriores. Há dois personagens com poder no centro do conflito, raras vezes estão de acordo e nunca respondem directamente um ao outro. Não é ficção. Cavaco Silva e José Sócrates são os responsáveis máximos do país. Mas a série está longe de chegar ao fim. E eles muito longe de estabelecerem uma base de entendimento. O preço, afirmam os politólogos ouvidos pelo JN, é pago pelos portugueses.

“É uma guerra entre fracos, entre duas personalidades que estão a desempenhar funções muito abaixo dos níveis olímpicos que o país exige nesta altura”, lamentou Viriato Soromenho-Marques, professor catedrático da Universidade de Lisboa. “O conflito cresce na proporção inversa da capacidade que eles têm para responder aos problemas reais do país”.

E esses problemas, defende, não são nem a falta de comparência de José Sócrates ao encontro com o Presidente da República, nem a rejeição de Cavaco Silva ao casamento homossexual – os dois motivos que voltaram a incendiar a relação entre os dois órgãos de soberania. A esse tipo de problema, no entanto, nenhum gabinete resiste a comentar. “O gabinete do primeiro-ministro já não estranha a intriga mesquinha que, a propósito e despropósito, é colocada nos jornais contra o primeiro-ministro”, reagiu São Bento sobre o mal-estar que a ausência de Sócrates terá provocado em Belém. “O relacionamento do Presidente da República com o primeiro-ministro é do domínio reservado. A Presidência não alimenta intrigas montadas para desviar as atenções”, respondeu Belém.

“É difícil ir mais longe nesta crispação do que eles já foram”, analisa João Cardoso Rosas, professor universitário de Teoria Política. Com a agravante de “estarmos constantemente a assistir a recados encomendados, a comentários por interposta pessoa (Sérgio Sousa Pinto, por exemplo, criticou anteontem Cavaco por causa do casamento gay.)”. Ou, como afirma Soromenho-Marques, assistimos “a uma espécie de guerra de estratégia indirecta, em que a tensão sobe ou desanuvia, mas nunca atinge o patamar de cooperação, que Cavaco prometeu no seu discurso de tomada de posse”.

A data do desmoronamento da relação entre ambos não oferece dúvidas: “o entendimento ruiu e a confiança quebrou-se com o veto do presidente ao estatuto político-administrativo dos Açores há um ano”. Mas também, relembra Cardoso Rosas, “porque foi nessa altura que Manuela Ferreira Leite assumiu a liderança do PSD. Teria sido fácil a Cavaco manter a sua promessa de cooperação se os líderes do PSD continuassem a não lhe agradar”.

A um ano das eleições presidenciais e três meses depois de ter sido eleito um governo de minoria relativa, “a chave tem pouco a ver com a incontinência verbal a que temos assistido”, torna Viriato Soromenho Marques. “O país precisaria de uma liderança política forte e na qual confiasse. Isso não só não acontece, como temos os dois principais órgãos de soberania fragilizados, com défices de popularidade e entregues a declarações infelizes, nas quais a melhor defesa é o ataque”.

“Nenhum fica bem na fotografia”, corrobora João Cardoso Rosas, sem disfarçar a “surpresa” pelo caminho seguido por Cavaco. “Esperava dele uma intervenção de fundo sobre o futuro do país e não a permanente tentativa de imiscuir-se na esfera do governo”. E acrescenta: “Sem alternativa que justifique dissolver a Assembleia e convocar eleições antecipadas, resta saber qual será a plataforma em que irá basear-se a recandidatura de Cavaco. Repetirá a promessa da cooperação estratégica?”

She's screaming, and I'm her only witness

[Olivia Bee]

O amor é um sanatório. Este amor é um sanatório. Ninguém vai ter alta. Se um fugir, salvam-se os dois. Mas ninguém foge. A que distância vive um conto de fadas de um filme de terror?!

sábado, dezembro 19, 2009

As sete vidas de Santana Lopes


É difícil perceber que característica melhor o define: se a resistência das pilhas Duracell, recarregáveis e mais duradouras que as outras, se a sensibilidade de menino guerreiro, que "precisa de um descanso, de um remanso, de um sonho". A verdade é que Pedro Santana Lopes, 53 anos, já foi deputado, eurodeputado, secretário de Estado, presidente de câmara, líder do PSD e até primeiro-ministro. E o cardápio de cargos poderia ser mais virtuoso se a todos eles não estivesse igualmente associada uma derrota ou uma desistência, que Pedro amua com facilidade.

Quem não se lembra da declaração pública que fez em 1998 a anunciar a desistência da vida política depois de ter ficado inconsolável com uma caricatura feita pelo Big Show Sic? Amuou, mas depois candidatou-se à Câmara de Lisboa. Ou, mais recentemente, de ter abandonado os estúdios da Sic Notícias, irritado por Ana Louranço ter interrompido a entrevista para mostrar em directo a chegada a Portugal de José Mourinho? Também travou guerras com Cavaco Silva em 1994, abandonando o Governo social-democrata. E nos congressos do partido garantiu sempre palco - o seu discurso é invariavelmente um dos mais aguardados -, mas nunca vitórias. Depois, a irritação passa-lhe e ele volta. Sempre. Com ambição renovada, que não há derrota que o faça eclipsar-se. Mesmo se já perdeu demasiadas vezes: dentro e fora do PSD. Foi fácil acreditar quando disse: "Vou andar por aí". É mais difícil acreditar quando agora garante: "Se sair do PSD, não voltarei." Pedro pode falhar, mas nunca deixa de tentar. Se o céu é o limite, só ele saberá.

Santana Lopes volta a dividir o PSD


Pedro Santana Lopes, que nos últimos anos perdeu o "país", a Câmara de Lisboa e a liderança do PSD, voltou para anunciar que quer tirar o partido do torpor com um congresso extraordinário antes das directas. Pelo PSD ou para recuperar o poder?

Se a ideia era congregar o partido em torno de uma proposta conciliadora e capaz de fazer ressuscitar o PSD como alternativa de Governo, o resultado foi contraproducente. A convocatória do congresso extraordinário, anunciada anteontem por Pedro Santana Lopes (PSL) no semanário Sol, já está a dividir militantes e dirigentes. Curiosamente, Manuela Ferreira Leite concordou com a ideia. "É um belíssimo momento para um debate muitíssimo importante antes das eleições directas". Só que a posição da líder do PSD, que teve conhecimento prévio do artigo por iniciativa do próprio Santana, longe de levar a que outros a sigam, acentuou a estranheza.

"O partido não precisa de um congresso extraordinário, precisa de eleições ordinárias", afirmou ao JN Ângelo Correia, antigo dirigente do partido, impaciente com o protelar constante da sucessão da liderança do PSD. "Não se justifica adiar por mais tempo a escolha de um líder que dê ao partido o rumo que ele perdeu".

O líder parlamentar, Aguiar-Branco, não irá subscrever a convocação do congresso, mas não vê nisso "um problema", desde que seja a vontade dos militantes. Já Deus Pinheiro, figura história do PSD, acha "a ideia excelente numa altura em que é tão importante discutir o partido e o país".

Ângelo Correia não podia estar mais em desacordo. O congresso, a realizar-se, será uma perda de tempo. "Juntar 500 pessoas num congresso a discutir o partido é diferente de juntar 50 mil militantes a votar numas eleições. Há uma escala democrática que se preserva e defende nas eleições." De resto, sustenta, "se é necessário eleger delegados para o congresso, porque não fazer já eleições?" O antigo dirigente vai mesmo mais longe. "A proposta de PSL é uma manobra suspeita, paralisante e frustrante das expectativas do partido. O Congresso só vai alimentar a confusão", prevê.

Deus Pinheiro está outra vez do outro lado. "É a ausência e não a discussão de ideias que cria confusão. A estabilidade do partido resultará de um debate em que sejam revistas as nossas posições".

Se a possibilidade de congresso está longe de gerar consenso, já a hipótese de PSL regressar à liderança do partido não oferece à mais pequena dúvida: aparentemente, a rejeição é transversal.

Miguel Relvas, deputado do PSD, que também não encontra utilidade no congresso - "A urgência que tantos parecem ter no congresso é oposta à calma com que adiam as eleições, e isso é estranho", disse -, recusa a ideia de que PSL possa ver nesta estratégia um caminho de regresso ao poder. "Os protagonistas do futuro não podem ser os mesmos do passado". Cita Pedro Passos Coelho numa entrevista que deu recentemente ao JN: "O PSD tem de emancipar-se dos velhos do Restelo". Nesse aspecto, até Deus Pinheiro está de acordo. " Não julgo que seja essa a ideia de PSL, mas se for, desaconselhou-o vivamente. O PSD precisa de alguém disponível, com sangue na guelra".

Para já, a lenha que PSL veio atirar para a fogueira do PSD serviu apenas para deixar ainda mais claro que não se sabe quem está do lado de quem. A ironia de Luís Filipe Menezes é um bom exemplo. "Fui líder do partido durante quase um ano e agora ia tentar resolver em 24 horas aquilo que não fui capaz de resolver num ano?!"

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Possession & Poison

[Olívia Bee]

Só sabias amar o que era teu. Só conseguias salvar o que podias guardar. Por uma vez, o amor não é capital acumulado. Amas o que vais perder amanhã.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Paraíso Perdido no TNSJ

Hoje, no Teatro Nacional São João, entre as 20 horas e a uma hora da madrugada, oportunidade imperdível para experimentar a leitura integral do texto «Paraíso Perdido», obra poética do século XVII, escrita por John Milton, originalmente publicada em 1667 em dez cantos. O poema descreve a história cristã da "queda do homem", através da tentação de Adão e Eva por Satanás e a sua expulsão do Jardim do Éden. Com direcção de Nuno Carinhas e Daniel Jonas. É possível entrar, sair e voltar a entrar.


"(...)Lembrem-se os homens que benigno o Eterno
Os aditou por tão feliz aliança.
Noites, dias, sazões, anos e séc’los,
Hão de seguir seus turnos té que o fogo
Abrase e purifique este Universo.
Então mais puro o Céu, mais puro o globo,
Serão de justos a morada eterna.”

domingo, dezembro 13, 2009

"A maior distância entre dois lugares é o tempo"

É infalível: Nuno Cardoso nunca desilude. Mesmo quando depois de tantas encenações perfeitas, a expectativa não pode estar senão no patamar mais elevado. "Jardim zoológico de cristal", do norte-americano Tennessee Williams, é um texto dos anos 40, a atravessar a Grande Depressão, mas basta conhecer o trabalho do encenador para saber que em algum momento ele havia de conseguir transportar aquela peça para a actualidade. Foi o que aconteceu.

Olha-se para o cenário, ainda inanimado, de Fernando Ribeiro, os actores ainda em pause, e fixamo-nos logo em dois detalhes que hão-de ser a chave para o que virá depois. A peça desenvolve-se toda dentro de uma espécie de aquário ou de montra, cujos vidros estão quebrados: o atalho para memória. E como ela pode ser adulterada com o tempo. Às vezes, para espetar facas; outras vezes, para apaziguar de um presente que está longe de ser o que se imaginou. Lá dentro, uma mesa pequena, cheia de animaizinhos pequenos, frágeis, de cristal. Estão ali a dizer-nos que a sua vulnerabilidade imita apenas, senão mais, a de quem os colecciona. Todos os personagens estão presos num contexto que gostavam de não ter.

Laura é talvez a maior personificação dessa fragilidade (e como Micaela Cardoso - sempre, sempre, sempre incrível! - consegue levar-nos às lágrimas!...). A rapariga superlativamente tímida, no limiar da perturbação, a rapariga inadaptada, que desistiu da escola, do curso de dactilografia, e mais que houvesse para desistir se não se tivesse enclausurado em casa (às vezes na floresta, às vezes nos museus...) a tratar dos seus animais sem vida e dos seus discos riscados. A rapariga que se fosse uma-vezes-mil em vez de ser uma-vezes-uma estaria a receber rapazes em catadupa para escolher aquele com quem deveria casar. Laura tem uma deficiência na perna, é coxa, multiplicou na cabeça essa deficiência por cem, e isso impediu-a de ser. É o fardo da família. Da mãe. É o unicórnio.

A mãe, Amanda Wingfield (eu que quase só tinha visto a Maria do Céu Ribeiro em monógos ou em peças a duas vozes, fiquei siderada) é uma mulher à beira de um ataque de nervos. Abandonada pelo marido há 16 anos, sustentada pelo filho contrariado, aterrorizada com o futuro de uma filha que ameaça não trabalhar nem casar. De vez em quando vai lá atrás, ao passado, à memória, como quem toma uma aspirina para suportar o peso do presente. Ela e os bailes, ela a sua interminável fila de pretendentes, ela e a sua imensa felicidade. Ela a oscilar entre o desespero e a esperança, entre a luta e a desistência. O filho, Tom, homem da casa, sabe-lhe as frases de cor. Evita-as: às histórias repetidas até à exaustão e à mãe. Vai ao cinema (?) todas as noites; todos os dias para a fábrica. É ele o narrador também. E também ele tem as asas cortadas.

Um dia, Tom cede, aceita levar lá a casa um colega da fábrica para conhecer Laura. O colega é, de todos os homens do planeta, o único por quem, um dia, em segredo, no liceu, Laura esteve apaixonada. Jim O'Connor, o rapaz mais popular da escola, tão popular que só por uma terrível rasteira da vida o futuro poderia apresentar-se naquele tão pouco glamouroso presente. Podia ter corrido tudo mal. Correu tudo bem. Mas já era se calhar tarde... "A maior distância entre dois lugares é o tempo".

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Finalmente, a crítica justa



Aí está a bela crítica de Luís Maio, no Ípsilon, àquele que é claramente um dos melhores discos deste ano. "Este é um daqueles álbuns desconfortáveis, castigadores, que nos fazem sentir miseráveis, mas que soam tão bonitos, que não conseguimos parar de ouvi-los. Um disco excepcional (...). As coordenadas musicais remetem para a herança do rock oceânico, arty e progressivo, sugerindo comparações que vão desde os Flaming Lips aos Spiritualized, passando por Arcade Fire e Sigur Rós. De facto, não há aqui nada muito original do ponto de vista sónico, mas o que faz de "Hospice" um disco tão avassalador é o abandono de Peter Silberman, a sua entrega profunda e incondicional ao tormento alheio. É a sua voz doce e anémica, mais os teclados sonambólicos que a vão embalando, os crescendos radiosos e os decrescendos terminais das guitarras, os sopros que soam a juízo final, mais as baterias que recriam o ruído opressivo de asas de helicóptero. É toda uma experiência musical que não apazigua, mas se funde de tal forma com a mortificação que a torna estranhamente fascinante."
LINDO!!!!!!

Manoel de Oliveira: 101 anos!

quinta-feira, dezembro 10, 2009

A bela política nacional

As pessoas irritam-se; os deputados são pessoas; logo os deputados irritam-se. O silogismo não foi usado por Jaime Gama, mas podia muito bem ter sido. Os dirigentes partidários até podem desculpar os deputados que se excedem, mas o país não será tão benevolente.

Há um ano, um estudo liderado por André Freire revelou que a confiança dos portugueses no Parlamento é inferior à média europeia e que oscila de acordo com as suas prestações televisivas. Anteontem, a televisão mostrou precisamente a Comissão de Saúde transformar-se num ringue de boxe semântico com Ricardo Gonçalves do PS e Maria José Nogueira Pinto, agora no PSD, a protagonizarem o mais recente desvario político, inflamado por substantivos disparados como se fossem adjectivos. “Palhaço” foi a designação encontrada pela deputada social-democrata para classificar o comportamento, alegadamente recheado de comentários laterais, do colega socialista.

Ricardo Gonçalves também não será inocente. Já por várias vezes os deputados socialistas foram obrigados a acalmá-lo em plena Assembleia da Republica. Com 52 anos, o professor de filosofia é conhecido pela forma “emotiva” de se expressar. Para Maria José Nogueira Pinto, 57 anos, ex-militante do CDS/PP, é que a troca de insultos terá sido uma estreia.

Tanto a estreia como a reincidência parecem funcionar como atenuantes para Jaime Gama. O presidente da AR procurou desvalorizar o episódio. “Conheço os dois parlamentares que estiveram envolvidos numa troca de palavras mais acesa, sei que são pessoas responsáveis, correctas e que se irão auto-moderar no futuro”. Mas nem o futuro apaga o presente nem o passado é a prova de que o incidente é inédito.

Perfect place for either suicide or a first date

segunda-feira, dezembro 07, 2009

sábado, dezembro 05, 2009

Patrick Watson: Perto do paraíso


Do fim para o início. Já chegámos ao paraíso e Patrick Watson está lá em cima, sete megafones de luz às costas, insondável instrumento, braços no ar, o corpo esguio empoleirado numa cadeira no meio da sala, das pessoas, do riso, feliz "special tea", a evangelizar a centena que ontem à noite esteve no Teatro Sá da Bandeira, no Porto. Aquela sala é um santuário, a cadeira vermelha um altar, Patrick Watson um deus. Ele, mestre, maestro, eleito líder espiritual por duas horas, manda e o público obedece, e todos repetem com ele, todos rendidos, perdidos de riso, embora sem o special tea, todos de braços pendurados no ar: "Just me, the fish and the sea". E a sentença da canção "Man under the sea", retirada do álbum Close to Paradise [2006], repetida durante minutos a fio numa penumbra memorável e mágica, sobe sem pressa de volume até uma espécie de apoteose. Ele está ali para salvar. Naquela sala há uma seita. Não tem nome, talvez nem crença, mas está feliz. O momento é de eucaristia. Porque há ali qualquer coisa que ressuscitou.

Do paraíso para o céu. Há em Patrick Watson, rapaz canadense, idade e barba de Cristo, qualquer coisa de conto de fados, qualquer coisa de corvo branco, de baile de praça francesa, de Amelie Poulain, qualquer coisa de manto celestial, de ironia aguda, de pimenta negra, dizem de cabatet, de experimentalidade, definitivamente. Estava ali para apresentar Wooden Arms, editado em Abril. A maioria queria apenas, ou pelo menos mais o paraíso: The Great Escape a arrepiar, a doer, ele ao piano, véu de bréu integral, o real fim do ruído, a grande saída, o fim de um dia ruim. Podes apenas colocar um sorriso e respirar? Mas o disco novo, longe de parecer estrangeiro, surgiu ali como se sempre tivesse feito parte do outro. Watson ao piano, e ninguém cruza a perna para tocar piano, mas ele cruza, cruza e diz enquanto limpa as chagas com água benta: You open your ears and heart. You put a big bird in a small cage, it will sing you a song.

Do céu para a terra. Ah, se a humanidade soubesse que às vezes a salvação está só à distância de um piano! Patrick Watson toca hoje em Lisboa. No Porto, passou em segredo. Alguém saberá porquê?!

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Luiz Ruffato: Eles eram muitos cavalos


Escusado tentar encaixar "Eles eram muitos cavalos" do brasileiro Luiz Ruffato numa qualquer categoria da literatura. Se fossemos mesmo obrigados a fazê-lo, diríamos apenas que é um longo poema. Ou 68 micro-poemas. Mas com regras próprias. Para ler em voz alta. E em loop. Um livro que desmonta tudo o que sabemos sobre livros e tudo o que não sabemos sobre as entranhas das cidades. Sobretudo, tudo o que nem sequer sabemos que é possível ver. Ou sabemos, mas não temos capacidade para.

Fixar o dia 9 de Maio do ano 2000 em S. Paulo. Era uma terça-feira e o céu estava nublado. E o mundo cabe inteiro dentro desse dia. O pai orgulhoso, o filho que tem um mapa na cabeça e o rapaz desempregado. A velha esbugalhada, avó. O garoto craque em matemática, jesuscristinho. O rato que observa os outros ratos na imundície. A mulher que o marido de pantufas nunca ouve. A vizinhança sempre atenta às discussões alheias. A tia da horta e o índio que dança no asfalto. A mulher que prometeu nunca mais beber e os amantes que poderiam ter sido grandes amigos. A princesa de 16 anos e a outra que é vaca, puta, cadela, desgraçada. O segurança negro espadaúdo e o evangelista à procura da inspiração divina. O McDonalds, claro, o telemóvel, o taxista, e obviamente o paraíso. O velho, cuja neta é boa, mas a adolescência... E isto tudo a velocidade de cruzeiro. Mil e muitos quilómetros/hora dentro da história que cada pessoa é.

É quase tão escusado catalogar "Eles eram muitos cavalos" como procurá-lo. Não há Fnac que nos valha. Encontrei um exemplar em Torres Vedras, na Livraria Livro do Dia, cujo proprietário, também poeta, fez a imensa gentileza de me enviar. De resto, é dele o melhor texto sobre a "experiência a não perder" desta leitura. Escreve ele: "Esta é uma grafia do tempo em que se escreviam cartas, um tempo em que dizer São Paulo, Lisboa ou Maputo, significava aos nossos cérebros uma secretária onde alguém se houvera sentado (...). Imagine-se a experiência de um filme de uma vida a passar-nos diante dos olhos, em fast forward - assim será aquilo por que Luiz Ruffato nos tenta fazer passar, uma leitura onde nenhum copo de água ou garrafa de oxigénio nos poderá aliviar, porque este livro lê-se com a cabeça e não com os olhos, com os movimentos e não com as palavras."

terça-feira, dezembro 01, 2009

A sangue frio

[Nan Goldin]
Subornei a memória para que ela te apagasse de mim antes que eu percebesse que nunca mais virias, nem hoje nem amanhã nem nunca. Antes que soubesse que nunca mais te veria e não soubesse o que fazer com isso. Com a tua colecção de amontoadas ausências, de violentas intermitências, de sucessivos encantos avulso. Os cometas não mentem. Tu eras um. Meu amor. Lembras-te da primeira vez? Da primeira vez que disseste amor colado ao pronome possessivo? Palavras como peças de xadrez. Sem sangue, que é onde se alojam os escrúpulos. Era um jogo, o árbitro nunca chegou, valia tudo. Até queimar. Até romper o tabuleiro. Se eu cair por ti, dás-me a mão? Se eu tivesse caído por ti, sem ti seria o chão.

Subornei a consciência para me vingar. Do arame, do poço da morte, da sala de espelhos. Do algodão doce. Da radioactividade. De ti. Enchi o teu lugar de outros lugares, as tuas palavras de outras palavras, as tuas faltas de presenças outras. Aos predadores só resta morrer ou matar, não é? A sangue frio, mato eu. Falcão peregrino, príncipe das aves de caça. Eras insuportavelmente meu, beijavas-me com trilhos sonoros, levavas-me no sono. Disputavas a manta, esticavas o braço, eu levitava. Explicavas o absurdo com a química. E a improbabilidade do futuro com a ampulheta da partida colocada em cima da mesa do bar de hotel. Não dou a vida, mas dou tudo de mim. Para ti, chega? Não podiam coexistir a luz do sol e o sangue do pescoço. Voo pardo, ocre, rasante. Não chegou.

Subornei o coração. A parte que era tua. Para poderes voltar. Hoje ou amanhã ou depois. Para não te ver quando te vir. Para não te sentir quando te tocar. Para não sangrar quando morderes.

domingo, novembro 29, 2009

José Saramago: Caim

Ignoro a polémica. Não sou por Saramago nem contra Saramago. Não sou devota nem alérgica à obra do senhor. E sobre a Religião, estou do lado dos que acreditam e praticam (ou tentam), mas vivo bem com quem a critica e abomina. Apesar disso, sobre Caim não me ocorre nada senão um cliché de solas gastas: muita parra; pouca uva. Muita controvérsia, muitas páginas de jornais, muitos membros da Igreja entrevistados avulso por causa de um livro que, afinal, não merecia o esforço. E não é porque Saramago não tente, não se entregue efectivamente à tresleitura do Antigo Testamento, ou porque aquilo não possa realmente melindrar os católicos mais fervorosos. É só porque Saramago o faz de uma forma tão preguiçosa, tão pouco criativa, com umas piadas tão quase infantis, que o desapontamento, não fosse ele quem é, não chegaria para alimentar qualquer tipo de celeuma.

sábado, novembro 28, 2009

Eu quase amei a forma como tu mentias




Eu quase amei a forma como tu mentias,
limpando os pés ao meu sorriso, e é claro que achas que eu não presto, é claro que achas que eu não sirvo

foi no teu amor que algo se perdeu, foi no teu amor , não no meu

eu quase amei a forma como tu me vias, logo eu amo outra pessoa, e não me importa se eu não presto, eu tenho planos para lá de mim, e tu és só o que eu te empresto

sexta-feira, novembro 27, 2009

Manuel António Pina


"Talvez só os pequenos amores possam ser felizes,
pois que, não chegando começar, também não acabam."

terça-feira, novembro 24, 2009

PSD no maravilhoso país das intenções II

Não foi possível aos deputados social-democratas disfarçar a total ausência de expectativa relativamente ao discurso que Manuela Ferreira Leite (MFL) proferiu hoje, ao fim da manhã, em Espinho, no encerramento das jornadas parlamentares do PSD. Por um lado, porque a deputada e líder do partido não esteve presente em nenhum dos painéis de trabalho de ontem, logo, seria impossível retirar conclusões do que não ouviu; por outro, porque qualquer declaração sobre a data das eleições directas para a escolha do próximo presidente do partido – assunto que pôs toda a gente a assobiar para o ar, embora as ditas continuem atiradas para depois da discussão do Orçamento de Estado para 2010 – era, como depois se confirmou, altamente improvável. MFL é o Michael Jackson da política portuguesa: entra muda, reproduz no palco a coreografia previamente ensaiada, acena com visível esforço ao povo, sai calada. E, mesmo assim, só quando todos os outros já saíram.

Sobre a poeira e o futuro do PSD, avançou portanto olimpicamente. A pandilha da bancada ficou confinada ao refrão "muito bem, muito bem" quando ela, a líder que todos querem que deixe de o ser, desatou a perorar sobre as já conhecidas críticas ao Governo, ali vagamente refrescadas pela boleia dos últimos acontecimentos. Nem o verbo "asfixiar" foi esquecido. E devidamente repetido. MFL denunciou, enunciou, pormenorizou tudo o que está mal. Ou seja, tudo. Mas esqueceu-se de dizer como se faz bem. Não é grave se considerarmos que também José Aguiar-Branco, que ali se fartou de apelar ao dever de eficácia do sistema judicial, esqueceu que foi, ele próprio, e há bem pouco tempo, ministro da Justiça...

segunda-feira, novembro 23, 2009

PSD no maravilhoso país das intenções I

São duas faces da mesma moeda, mas o PSD acha que pode separá-las. As jornadas parlamentares, que começam hoje em Espinho, pretendem solucionar os problemas do país, mas não a turbulência interna do partido. (Turbulência?! Que turbulência?!) Será uma reunião, no mínimo, curiosa. Os líderes das distritais do Porto e Lisboa exigem a antecipação de eleições directas. José Pedro Aguiar-Branco admite que Manuela Ferreira Leite já deu indicações que apontam para uma nova liderança - mas ele recusa assumir-se como candidato e ela parece recusar eleições antes de cessar o mandato; Marco António Costa diz que o PSD não poderá fazer oposição séria ao Governo nem surgir-lhe como alternativa enquanto continuar desorientado do ponto de vista político e a boicotar o seu trabalho diário no Parlamento, mas aparentemente só concorre em instâncias que só Deus conhecerá. Marcelo Rebelo de Sousa só concorre se não tiver concorrência. Pedro Passos Coelho continua à espera que soe o tiro de partida para uma corrida que ninguém sabe quando começa. Também ninguém sabe quem apoia quem.


Apesar desta reclamada urgência na substituição da líder, e apesar de ser claro para os dirigentes e militantes que não haverá credibilidade nas propostas de solução para os problemas do país sem estabilidade interna no partido, é nesse cenário de faz-de-conta que a família social-democrata irá estar reunida hoje e amanhã em Espinho - querendo parecer coesa e debaixo de um único guarda-chuva: a afirmação de Portugal. Pode o país acolher as propostas do PSD quando o PSD não se ouve a si próprio? É possível dissociar uma coisa e outra? Eles garantem que sim....

If I could turn back time.. Would I unlearn all the things I have learned? Would my first kiss be my last one? Would I un-cry all the things I regret?

Regret from Robin Glass on Vimeo.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Noites brancas


“Noites brancas” é, de todos os livros de Dostoievsky, o único que é romântico. Uma historia de amor contada em quatro noites de Primavera, em S. Petersburgo. Uma história de amor e solidão entre um sonhador - e não há pior condenação na vida do que ser-se sonhador, daí estarmos perante um herói proscrito - e Nástenka, menina que, na quase infância dos 15 anos, sem pai nem mãe, ficou presa por um alfinete ao avental da avó cega, castigo que a impedia de repetir as traquinices da idade. Esta novela do escritor russo - a última antes de ir para a prisão - é de uma beleza tal, que é difícil imaginar qualquer tipo de acção sobre ela. Ainda por cima, este sonhador faz tanto lembrar K. Maurício de "A morte do palhaço", de Raul Brandão (embora este escrito muito mais tarde, 105 anos depois), que essa associação faz elevar a fasquia até ao limite da mais absoluta intolerância diante de qualquer exercício sobre o texto.

E apesar disto, a companhia portuense Chão Concreto ousou arriscar a sua primeira produção com ele. E ousou despir o cenário de qualquer adereço que tivesse a obviamente estéril pretensão de nos remeter para aquela "noite divina", para aquele "céu estrelado e límpido" que no colocaria diante da pergunta: "será possivel viver sob este céu gente zangada e injusta?" Um banco velho de jardim é tudo. Mais ainda, ousou colocar dois actores (Ivo Bastos e Nuno Preto) em palco em vez de um actor e uma actriz. E assim, de repente, quando aquilo começa, quase pensámos: isto é um salto para o abismo, um arma apontada em direcção ao texto, não estamos preparados para ver este texto ser assassinado. Mas ainda não terminámos o pensamento e já nos demos conta da injustiça.

Aos primeiros minutos do monólogo do sonhador, o sonhador na pele do seu pior inimigo, porque nada é mais violento do que sonhar, somos engolidos por ele. Não há actores em palco, não há uma farsa, há aquela história inteira, fidelíssima, de um homem que de tanto sonhar se esqueceu de viver, aquele homem a dar a mão com força àquela rapariga que chorava à chuva, aquele homem a amá-la no silêncio, com medo de a ferir com tanta timidez, com qualquer palavra fora do lugar, aquele homem a despejar palavras em catadupa, umas atrás das outras, como se o mundo fosse acabar amanhã. Ou dali a quatro noites. E quando Nástenka aparece, ela ali no corpo de um homem, ela ali também a contar sua história, a sua dor pelo noivo que não voltou, ela cheia de trejeitos de menina, ela também cheia de sonhos, de vontade de esperar, , julgávamos que já não era possível uma rendição maior. Mas talvez fosse. Era. A felicidade, o amor, aquilo de que um já tinha desistido e o outro ainda esperava, estava ali. Como é possível não ver?

Há textos que, para sobreviverem, têm que ser tratados com pinças. É o caso. O diálogo (ou os dois monólogos) de Noites Brancas é um dos mais bonitos da história da literatura. E ali ele é tão bem tratado que quase dá vontade de, no fim, abraçar os actores. A peça estreou ontem. E vale mesmo a pena vê-la. "Um minuto inteiro de felicidade! Será pouco, mesmo que tenha de dar para toda a vida de um homem?..."


Encenação: Rodrigo Santos
Interpretação: Ivo Bastos e Nuno Preto
Desenho de Luz: Pedro Vieira de Carvalho
Cenografia: Ricardo Preto
Figurinos: Catarina Marques
Produção Executiva: Marta Lima
De18 a 29 de Novembro, às 21:45
Sala-Estúdio Latino , no
Teatro Sá da Bandeira
21.45 horas.
Até dia 29.

quarta-feira, novembro 18, 2009

Felt Mountain

[Olívia Bee]

A mesa do café é uma torre de veludo. Nome de revolução pacífica, veludo. Do lado de lá, à distância de uma incógnita, um cavalo com asas. E lá em cima, se lá pudesse chegar, uma noite inteira de estrelas, o inefável olhar do jogador. As mãos a arder como fósforos acabados de lamber o papel. O que poderia detê-los? O destino como um lugar prestes a acabar. O início como anúncio da despedida. A vida numa ampulheta, em contagem decrescente. Um duelo. Hércules mata o Leão de Nemeia; Hércules é derrotado pela Hidra de Lerna. Quem é quem? Ambos foragidos da vida, bestas de carga que se aliviam da trouxa num tabuleiro de xadrez. Gatos que só adormecem quando a voz do colo lhes fala baixinho ao ouvido. Por sussurros. E acordam em sobressalto, rabugentos, quando são devolvidos ao chão. Gatos de temperatura certa. Kasparov contra Karpov. Como se chama a uma coisa que existe, mas não tem peso? Meteorito, corpo celeste? Quem ofusca quem? Inúmeras viagens ao estrangeiro, nenhuma ao céu. Nenhum mapa para ajudar. A mesa do café é um monte de destroços a levitar. O tempo a chegar ao fim. Agora ou nunca. Violinos a gemer, aves de rapina a levantar voo, o chão a tremer, o mundo já podia a acabar. A história toda contada no tempo de um café. Com adoçante, por favor.

terça-feira, novembro 17, 2009

And we could be together till the end... If...

[Olivia Bee]

Se ela fosse uma estrada, ele segui-la-ia. Se fosse a noite, ele dormiria durante o dia. Mas se ela fosse o dia, então ele escolheria a noite para chorar. Se ela fosse uma árvore, ele abraçá-la-ia e poderia esculpir o nome dele no corpo dela. E ela não iria chorar porque as árvores não choram. Se ela fosse um homem, ainda assim, ele continuaria a amá-la. Se fosse uma bebida, ele embebedar-se-ia com ela. Se fosse atacada, por ela, ele mataria. Se o nome dela fosse Jack, ele por ela mudaria o nome para Jill. Se ela fosse um cavalo, ele não hesitaria em limpar-lhe o estábulo. Poderia montá-la ao amanhecer e ficar com ela até ao dia acabar. Falaria sobre ela nas canções dele, cantaria para ela à medida que caminhassem em direcção ao pôr-do-sol. Se ela fosse filha dele, ele teria dificuldade em deixá-la ir embora. Se fosse irmã dele, desejaria encontrá-la a dobrar. Se ela fosse um cão, ele alimentá-la-ia, dar-lhe-ia o melhor. Então, ela seria a sua mais fiel amiga, nunca teria de pensar duas vezes, e eles poderiam ficar juntos até ao fim. Se...

Divine Comedy, aqui.

When you least expect, your sky will trumble down


Some things are better left forgotten
all the weight of the world will crush your bones
in an ideal situation
this will all be over soon

and I will leave this world in pieces
I will leave it to the scarab and the crows
under seas and under soil
in a million years our bones will be your oil

one by one
it happens to us all
when you least expect
your sky will tumble down
we were surprised to find it was our time
to sink or swim

we’re out of our death
the sea of regrets and
I hate to say I told you so
a sea of excess and
this is everything I hoped it would be
Sea of regrets, i like trains, aqui.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Edie Sedgwick, la femme fatale



No sétimo piso do Museu Andy Warhol, em Pittsburgh, segunda maior cidade da Pensilvânia, nos EUA, há um filme de Edie Sedgwick. Um filme hipnotizante, em loop, sem fim, sem som, um filme a preto e branco sem história. Ali está ela diante da câmara, a dançar, a serpentear, a rir, a fazer poses dengosas, infantis, poses exóticas, eróticas. E tudo nela é ardente, os olhos riscados de preto, os lábios cheios, carnudos, vermelhos, o cabelo platinado, de ouro, às vezes de prata, até o cigarro que aperta entre os dedos. Ela ali a querer ser actriz, ela ali a provar por que razão a maior exibição da vida dela foi ela própria. Chegámos ali, nós que não nos damos particularmente bem com a Pop Art e desdenhamos das latas Coca-Cola e das embalagens de sopa Campbell, chegámos ali e percebemos por que razão valeu a pena ali chegar. Edie Sedgwick é a cereja, sabe que é impossível tirar os olhos dali, dela, é arte em estado vivo. Com tudo o que a arte, e nem sempre a vida, tem de loucura, de excêntricidade e, ao mesmo tempo, de absoluta pureza. De vício. Ela, a musa de Warhol; a Leopard-Skin Pill-Box de Bob Dylan; a Femme Fatale que Lou Reed escreveu para os Velvet Underground em 66; ela, nome de bares, de poemas, de canções, de filmes, de perdições várias; ela, ícone de moda dos anos 70, de todos os anos que ainda estavam por vir; ela, a menina cool de Manhattan; ela, viciada em drogas e, apesar disso, tão cheia de liberdade. Ela, a menina-mulher da Califórnia que morreu de overdose aos 28 anos. Se fosse viva, Edie Sedgwick faria hoje 66 anos.

A menina do rio


Ela tem os olhos a brilhar. Vira-se para mim, do quase nada, e diz na sequência de qualquer coisa que não ouvi: "É como a gota de orvalho que pesa na folha da couve enterrada no chão. Não pesa sempre, mas às vezes pesa tanto, sabes?" Não sei, mas naquele momento começo a ouvi-la. Ela tem os olhos a brilhar (tanto!), o coração a chorar. "Nunca sabemos quando vai ser para sempre, não é?", pergunta-me. Não sabemos, é verdade. E ela queria que tivesse sido, precisava que tivesse sido já. Que tivesse sido para sempre aquele o amor que era o reflexo dela, que era ela em versão masculina, que encaixava nela como nenhum outro antes. "Quando isto falha, é difícil saber o que pode resultar, não é?" Não sei. Não sei se o amor é lotaria, construção ou acaso. Não sei se, para ser amor, tem de ser para sempre. Ela ainda não tem 30 anos. Tem os olhos a brilhar, e tem medo (tanto!). Diz-me que as pessoas se dividem entre as que são rio e as que são mar. "Podemos olhar para ambos de costas: o mar leva-nos; o rio não". Ela diz que é a menina do rio. Não sei porquê.

Prepare a list of what you need, before you sign away the deed, because it's not going to stop

domingo, novembro 15, 2009

Patrick Watson, Piano Magic e The Invisible

[Piano magic]
Patrick Watson, Piano Magic e The Invisible, concerto único, no Teatro Sá da Bandeira, no Porto, no dia 4 de Dezembro. Patrick Watson (http://www.myspace.com/patrickwatson), vencedor do Polar Muzic Prize, vem a Portugal pela segunda vez depois de um concerto memorável na Aula Magna em 2008. Os Piano Magic (http://www.myspace.com/lowbirthweight) vêm apresentar o seu mais recente disco “Ovations”, que conta com a participação especial de Brendy Perry (Dead Can Dance). Os britânicos The Invisible (http://www.myspace.com/theinvisiblethree), pela primeira vez em Portugal, vêm apresentar o seu disco de estreia, nomeado para o Mercury Prize de 2009.

sábado, novembro 14, 2009

Ciclo Kate Moss II

Ciclo Kate Moss I

Jimmy Choo para H&M exclui o Porto


[Christian Louboutin]


Como ninguém é perfeito, também eu gostava de ter uns belos sapatos do senhor Louboutin, aquela solinha vermelha (azul, para noivas), aqueles 13 centímetros acima do chão que fazem tanta falta a quem mede tão pouco, aquele desenho, blá blá blá. É ridículo suspirar por uns sapatos que nos custam mais do que um salário inteiro? Claro que é! Aliás, suspirar por uns sapatos, só por si, já é suficientemente ridículo. Mas é por causa desses desejos - sim, ridículos, e sim, impraticáveis para a maioria -, que os suecos da cadeia H&M decidiram criar uma espécie de sucedâneo das colecções de alguns criadores para, supunha-se, democratizar a coisa. A última parceria foi com foi Jimmy Choo, outro designer de sapatos, tão cobiçado como o francês, mas este nascido na Malásia. A micro colecção Choo está hoje à venda nas lojas H&M seleccionadas. Quais? Não sei quantas existem no país, mas imagino que sejam centenas. As três lojas seleccionadas são... em Lisboa. As três. Não é digno de abaixo-assinado contra o suecos?!

quinta-feira, novembro 12, 2009

Um mês depois das eleições, é difícil que não nos sintamos parvos!

Acto I. Estamos a 3 de Outubro de 2004 e José Sócrates é eleito líder do PS. A 9 de Outubro, Armando Vara regressa à direcção do partido pela mão de Sócrates. A 20 de Fevereiro de 2005, o PS vence as legislativas com maioria absoluta. A 2 de Agosto de 2005, há mudanças na Caixa Geral de Depósitos: Teixeira dos Santos afasta Vítor Martins e Vara integra o “novo” conselho de administração. A maioria dos membros desse conselho é afecta ao PS.

Avancemos no tempo. Grande plano. No primeiro semestre de 2007, a Caixa financia accionistas hostis ao conselho de administração em funções no BCP. Cresce o peso do banco do Estado no maior banco privado português. Vara e Santos Ferreira são incluídos em lista concorrente nas eleições para o conselho executivo. Os jornais falam no financiamento da Caixa ao empresário Manuel Fino que apoia Santos Ferreira.

A 15 de Janeiro de 2008, Armando Vara é eleito vice-presidente do BCP. Segundo documento divulgado pelo próprio banco ficam a seu cargo os pelouros executivos mais relevantes: (i) Rede Corporate; (ii) Rede Empresas; (iii) Factoring e Leasing; (iv) Marketing de Empresas; (v) Aprovisionamento, Património; (vi) Desinvestimento de Activos; (vii) Fundação BCP; (viii) Millennium Moçambique. Ou seja, Armando Vara coloca-se precisamente no coração dos movimentos de créditos, dívidas, compras e vendas de acções e activos. No centro do fluxo de todos os interesses e todas as influências.

Chegados aqui, com os actores certos nos papéis certos nas duas maiores instituições de crédito nacionais (CGD e BCP), tudo se torna possível. O primeiro golpe foi concluído. Começou então o segundo.

Acto 2. Com as possibilidades que o controlo do BCP oferece, o recém-chegado grupo Ongoing, que entretanto adquirira o Diário Económico e já tinha uma posição no Grupo Impresa (SIC, Expresso, etc), é financiado para novas acções. Com o grupo Ongoing: José Eduardo Moniz sai da TVI e controla-se a Media Capital, depois de uma tentativa de aquisição pela PT abortada pelo Presidente e pela oposição. Em Fevereiro de 2009 torna-se possível ajudar o empresário Manuel Fino a aliviar os problemas financeiros (em parte criados pelo reforço da posição no BCP) junto da CGD prestando uma dação em pagamento com acções suas valorizadas cerca de 25% acima do preço de cotação e com opção de recompra a seu favor. Torna-se também possível ajudar o «amigo Oliveira» a resolver os problemas financeiros do seu grupo de media (Diário de Notícias, TSF, Jornal de Notícias).

Tudo factos do domínio público que muitos a seu tempo denunciaram. Sócrates respondia com a cassete familiar: “Quem tem procurado debilitar os órgãos de supervisão, lançando críticas à sua actuação no BCP, está a fazer 'política baixa'". Política baixa, diz ele. Estamos perto do fim desta operação bem montada. Sócrates ganhou de novo as eleições. Mas este encadeamento todo precisava de confirmação. Incrivelmente, nas escutas a Armando Vara no caso “Face Oculta” eis que surge a arma do “crime” libertando fumo: "O primeiro-ministro e o ‘vice’ do BCP falaram sobre as dívidas do empresário Joaquim Oliveira, da Global Notícias, bem como sobre a necessidade de encontrar uma solução para o ‘amigo Joaquim’. Uma das soluções abordadas foi a eventual entrada da Ongoing, do empresário Nuno Vasconcellos, no capital do grupo. Para as autoridades, estas conversas poderiam configurar o crime de tráfico de influências."

Escutas nulas, disse o Supremo. Os factos, meus amigos, é que não são.

["Cronologia de um golpe", Pedro Lomba, hoje, no Público]

quarta-feira, novembro 11, 2009

sábado, novembro 07, 2009

Wish you were here

[Olivia Bee]

O grande mistério dos anos que passam, no dia em que passam, são os amigos. Os que não sobreviveram - à vida ou só ao ano anterior; os que sacodem o bolor - do esquecimento ou da saudade - uma vez por ano; os que regressam de um amuo à boleia da data que nos faz esponja de afecto; os que resistem - ao tempo, à distância, às guerras todas, quase todas de silêncio; os que resistem, mais difícil ainda, à vida de todos os dias; os que se estreiam para previsivelmente desaparecerem. E os que vêm agora, como rosas brancas, para nunca mais murcharem. A voz daquele milésimo de segundo que dita a meia-noite, raras vezes é a mesma.

Mas há vozes que ficam sempre, que estão sempre lá. Cá. As vozes que não morrem, nem mudam, nem se atenuam. A voz da mãe que substitui a amiga que já não está. Aquela voz branda, baixa, tão valente, aquela voz porta-voz de quem não pode já falar com palavras. Essa voz a lembrar que a distância entre a terra e o céu é apenas de um abraço que se dá com o coração. Às vezes, a terra pode ser o chão daqui e o céu Buenos Aires.

quinta-feira, novembro 05, 2009

Spotless mind

[Olívia Bee]

Estranha forma de vida perseguir o rasto de um cometa quando ainda não é noite e a luz já está acesa. Querer ver o que não é visível. Sítio errado, à hora errada. Baptismo de fogo é isto, ter asas e não poder voar. Coreografia errada mesmo quando arde. Ouço melhor quando não dizes nada. No silêncio brando, a resposta. Se até Deus morreu...

quarta-feira, novembro 04, 2009

Herberto Hélder

[Olívia Bee]
"Se me perguntarem das artes do mundo
escolho a de ver cometas."

segunda-feira, novembro 02, 2009

The dark is rising

Vejo um muro, uma igreja iluminada. Não te vejo. Vejo um rio, um barco bambo. Não te traz. Traz estrelas. Grilos ou poemas, tanto faz. A tua voz. Traz só o que não se vê, o que pesa e não ocupa espaço. Redoma de violinos, velocidade lustrosa. O ritmo imposto pelos dias que não voltam. Tempestade estranha com frio fino e chuva de luz. Muitas noites a trovejar. Balas de vidro, estilhaços, crimes aguçados, escondidos. Vejo um sorriso bordado por cima do sangue. Acreditei em ti antes sequer de te beijar. Adormeço. Vejo uma boneca morta, um gato castrado, uma lua com sono, uns pés cansados. A vida pendurada por fios.

domingo, novembro 01, 2009

Sweet November

[Olívia Bee]
É incrível como, de repente, nos tornamos dependentes de alguém sem a qual há um mês o mundo girava perfeitamente.

sexta-feira, outubro 30, 2009

Vertigem


É sempre assim. Só no amor não há duas histórias iguais. Vendeste a alma ao diabo, entregaste a vida numa loja de penhores, começaste a morrer quando devias ter começado a viver. Menino velho. Por cada passo em frente, dás dez para trás. Mas dizes, e talvez acredites, que desta vez é que é de vez, que desta vez é que vai ser. E depois nunca é. Mas tu tentas. Ou tentas tentar. Tentas que tentem por ti, que tentem contigo. Que se viciem no vício de te salvar do vício, do teu. Mas se viciam, tu fraquejas. Sabes que o lado cruel do jogo é a força estar do lado de quem não a tem. Trapézio sem colo. Desculpas-te com isso. Um dó li ta. Estás cansado da dor do corpo, da dor que te faz doer até os fios de cabelo. Os olhos a arder, os teus. Como o resto todo. Cansado das insónias e dos pesadelos quando dormes, sempre pouco. Cansado de acordar e voltar a sentir tudo outra vez. A solidão, sempre. E voltas a fugir, a desistir. Um soneto. Coloreto. Continuas a morrer. Todos os dias, mais um bocadinho. A vida a escorregar-te. Há quanto tempo? Há demasiado tempo. A maioria recusa acreditar em ti. A maioria preferiu esquecer-se de ti. Ou talvez não, talvez seja só para não morrerem contigo. Para estarem cá quando sobreviveres. Um dia de cada vez. Quem está livre, livre está.

terça-feira, outubro 27, 2009

Sylvia Plath (1932-1963)

Viveu numa redoma de vidro, viveu a tentar morrer. Da última vez que tentou, tinha 30 anos. No dia 11 de Fevereiro de 1963, toma uma dose proibida de medicamentos, coloca a cabeça dentro do forno da cozinha e sorve o gás até adormecer. Conseguiu. Para trás, ficaram dois filhos (o mais velho enforcou-se em Março deste ano), um casamento com o poeta inglês Ted Hughes, um divórcio e muitas depressões. E mais poemas de gelo, de prata, de sangue. E diários escritos desde os 11 anos. Muitos foram destruídos; os que sobreviveram estão guardados, só serão conhecidos em Fevereiro de 2013, para assinalar o 50º aniversário da sua morte. Se fosse viva, Sylvia Plath faria hoje 77anos. Os Antlers têm uma canção linda para ela, aqui.

segunda-feira, outubro 26, 2009

Um lugar ao sol

[Olivia Bee]
Não tinhas medo de morar paredes meias com o cemitério. Desde que me lembro de ti, lembro-me de ti sentado na rede branca presa por cordas às árvores do pátio de tua casa. Ficavas ali a balouçar, também nos sonhos, a rir, virado para as campas. Nunca pareceste uma criança. As coisas que dizias, a forma como as dizias, parecia que tinhas nascido ensinado de coisas que nunca saberíamos aprender. Às vezes, levantavas-te da rede e ias falar com os mortos. Mortos que, antes o serem, nunca conheceste. E lias as dedicatórias. E trocavas a água às flores, mesmo quando eram de plástico. Passeavas pelo recinto vedado a grades de ferro, pisavas aquela terra amarela que se cola à sola dos sapatos mesmo quando está seca, contornavas as pedras de mármore com a alegria de quem viaja por um jardim que não enterra corpos, encerra segredos. Fazias as contas desde a data do falecimento de cada defunto onde estacionavas até ao momento presente. E tentavas encenar o que aquela pessoa faria se ainda fosse viva. Tentavas imaginar de que forma aquela perda havia influenciado a vida dos que ficaram. Quando tropeçavas numa morte muito antiga, mas ainda cheia de flores novas, comovias-te. Quase choravas por uma dor que não conhecias, que não era tua, mas que supunhas que havia de ser grande. Grandemente insuportável. Nunca ninguém sobrevive se não esquecer.

Quando estavas triste, ias para lá, para o cemitério, mais ou menos às claras, mais ou menos às escondidas. Quem poderia entender um rapaz que em vez de jogar futebol como os outros meninos gostava de passear no universo dos mortos? Tu gostavas, mas também não eras capaz de explicar porquê. Achavas que cada morto era uma espécie de anjo pousado nas oliveiras e que cada um deles te conseguia ver e ouvir. E entender. E talvez até proteger.

Quando cresceste, esse teu ritual não mudou muito. A única coisa que mudou foi que passaste a ter as tuas próprias pessoas alojadas em vários cemitérios. Passaste a sentir a dor que antes só imaginavas. Não era muito diferente, dizias. Era só mais epidérmica. Era a tua. Perdeste muita gente em muito pouco tempo. E sentiste muitas vezes saudades dos tempos em que nos teus passeios pelos cemitérios só havia gente que para ti era anónima. Agora, estavam ali a primeira mulher que julgaste amar de verdade, o amigo que não era o melhor mas de quem gostavas como se fosse, os avós todos. E o teu pai. Gente suficiente para teres perdido, se alguma vez o tiveste, o medo de morrer.

Elogiavas o suicídio dia-sim, dia-não. Dizias que o grande bálsamo da vida é a possibilidade da morte. O saber que podias acabar com tudo no momento em que quisesses, no momento em que não fosse capaz de continuar. Mas nunca te suicidaste. Nunca sequer tentaste verdadeiramente. Mas sempre disseste, mesmo quando a frase já não tinha a doçura dramática da adolescência, que havias de ir embora cedo. Dizias como se acreditasses realmente nisso. Não sei se acreditavas. Acho que só dizias isso porque querias que o destino te pregasse uma partida, obrigando-te a morrer velho e decrépito. Não pregou, o destino. A partida.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Íntima Fracção


"As baladas do coração perplexo".
"Se no meio de uma tarde de chuva encontrasse a Audrey Hepburn, ficaria menos perplexo do que fico perante o meu coração persistente. Recordações, esperanças e ... isso, a perplexidade."

Francisco Amaral, para ouvir aqui:
http://aeiou.expresso.pt/para-ouvir-as-baladas-do-coracao-perplexo=f541050

quinta-feira, outubro 22, 2009

valter hugo mãe: o apocalipse dos trabalhadores


Ela queria morrer de amor. "Porque o amor não cabia quieto no espaço tão pequeno que era o corpo de mulher." O corpo dela, mulher de Bragança, mulher-a-dias, mulher de marinheiro, roliça Maria da Graça, portuguesa típica, quarenta anos, um bocadinho mais ou um bocadinho menos, que quando não há futuro para sonhar, tanto faz a idade. Maria da Graça queria morrer - já agora, de amor -, porque só morrendo encontraria a felicidade. Ou pelo menos, paz. A felicidade e o senhor Ferreira, patrão de uma vida, "velho a quem idade não tirava o fulgor", homem "maldito" que lhe ensinou o requiem de Mozart e a beleza de Goya, a poesia de Rilke e as teorias de Bergman, "homem sem escrúpulos" que lhe escalava o corpo de cada vez que ela, reles empregada, se colocava de rabo para o ar a esfregar o chão. Parecia maldito; era bendito. Era o mais próximo que conhecia de ser feliz. Mesmo que odiasse. Ao marido, Augusto, colocava "lixívia gourmet" na sopa. Não era para o matar; era só para se vingar da dor.

Maria da Graça e Quitéria são as melhores amigas, as duas de Bragança, as duas carpideiras semi-profissionais, putas de vez em quando. Entretêm-se a falar sobre o nada que é a vida de quem na vida não tem nada para esperar que não seja trabalhar para não ter nada. Quanto mais amor de verdade. As duas vazias de sonhos, as duas ali perdidas, esquecidas por deus. Uma à espera que a morte a salve; a outra a ser salva aos bocadinhos por uma pila qualquer, descartável, esquecível. Até conhecer Andriy, ucraniano belo, 23 anos, imigrante, tão esquecido por deus como elas; como elas, tão abandonado pela vida. Ele à procura em Portugal também de uma salvação qualquer, que num país que faz uma revolução com flores nada de mal pode acontecer. Pensava ele, pensavam os pais. Encontra Quitéria. Insondáveis os caminhos do amor.

"o apocalipse dos trabalhadores", de valter hugo mãe [QuidNovi, 2008], é assim uma espécie de soco no estômago que não passa, que fica ali sempre a bater como um martelo pneumático. Também na cabeça. É uma história de aqui, de agora, a dizer-nos que se calhar mudámos muito pouco, quase nada, apesar de tudo o que mudou. É a história de quem está no purgatório à espera de saber se vai para o céu. O inferno já todos conhecem. Somos nós, e não parece.

quarta-feira, outubro 21, 2009

The beginning of the end


Começou a esquecê-lo no momento em que ele a deixou na estação de comboio, ao fim da tarde. Ainda mais de trinta graus e ela já subitamente cheia de frio, o coração irremediavelmente estilhaçado, as mãos a tremer como se tivesse parkinson. Uma espécie de choque térmico, mas por dentro. Ela toda ali a desabar num banco, que nem sequer era de jardim - não que ser de jardim atenuasse alguma coisa... Um banco de onde se via uma placa a dizer: Partidas. Estava ali prestes a partir partida. Aprendizagem difícil esquecer alguém. Não vem nos livros, não é lição que Coimbra possa ensinar, não há em lado nenhum nada escrito que se possa decorar e depois aplicar. Molhou dois cigarros antes de entrar na carruagem 23, lugar 118, enquanto apagava todos os vestígios dele no telemóvel, mais de cem mensagens, quase todas sabidas de cor à força de tanto as ter lido. Molhou o primeiro cigarro, desistiu dele. Acendeu o segundo, nada a fazer, teve que desistir também. Ele não sabe, não fuma, mas fumar cigarros húmidos não dá prazer nenhum. O corpo, o dela, ainda a cheirar ao dele, apesar do banho de água quase fria. E, no entanto, uma solidão como nunca tinha experimentado na vida. A garganta incapaz de engolir sem arder, como se estivesse inflamada. É como se ele tivesse sido a corrente de ar dela e ela tivesse ficado constipada. Estava ali quase capaz de pedir um abraço, como quem pede lume, ao primeiro estranho que se sentasse ao seu lado no banco. Um abraço lento, apertado, quentinho. Um abraço-casaco. Mas ninguém arriscou sentar-se ali.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Vídeo-Maria ;)

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Da paixão


Já ninguém se apaixona como antes. De forma arrebatada e bloqueadora. Já ninguém quer morrer de amor, até porque depois não se morre realmente e ressuscitar do estado temporário de sonambulismo dá muito mais trabalho. Já ninguém escreve cartas dramáticas, terminais, com selos colados com sal das lágrimas num envelope de papel, nem fica em casa fechado, aturdido, a ouvir músicas de fazer chorar as pedrinhas da calçada. Já ninguém perde a fome quando o coração acelera, nem falta à escola ou ao emprego alegando uma inusitada dor de barriga, que é afinal do peito. Já ninguém fica às escuras a jurar que nunca mais vai sentir isto outra vez. Já ninguém acredita que há coisas que só acontecem - quando acontecem - uma vez na vida e que há uma única pessoa para sempre, porque há sempre demasiadas pessoas a gravitar à volta - todas únicas, todas especiais. Já ninguém se apaixona como os adolescentes - nem sequer os adolescentes. A paixão imberbe, inocente, total, ansiosa e em carne viva acabou.

Antes, quando alguém julgava apaixonar-se a sério, lutava incansável e pacientemente pelo objecto da paixão. Mesmo que isso implicasse vergonhas, meter cunhas aos amigos, fazer cenas e figuras tristes. Hoje, quando alguém tem a vaga impressão de estar apaixonado, fica à espera que passe. E que não atordoe muito enquanto não passar. Sem perder a pose. Antes, quando alguém estava apaixonado a sério e não era correspondido, cortava relações. Era o tudo ou nada. Hoje, quando a paixão não é correspondida, as partes ficam amigas e partilham o mesmo café. A vida pela metade é hoje mais do que razoável. Antes, a impossibilidade da paixão desejada impossibilitava outras paixões. Hoje, a paixão incumprida é motor essencial para abertura a novos relacionamentos. Antes a paixão era confessada e assumida; hoje é disfarçada e recalcada.

As histórias todas têm um fim. Mas na vida, o fim de cada história significa sempre o início de uma nova. E, às vezes, as que que terminam nunca chegaram realmente a começar. Poderia ser mais triste?

segunda-feira, outubro 12, 2009

Quiz question


"When reality ends, where do you want to be
when you start dreaming?"

domingo, outubro 11, 2009

Era uma vez um Porto...

[Foto: JMG]

Philip Roth: Indignação


É cada vez mais difícil dizer qual é o melhor livro de Philip Roth. Quase tão difícil como encontrar um livro do autor americano em que a morte não seja a personagem principal. Em Indignação, a sua obra mais recente de uma colecção de 27, a história não é contada por quem, como habitualmente, trilha esse caminho para o fim; é contada porque quem já chegou ao fim, e volta para revisitar vida. Ou, como diz Roth, contada por quem está "sob o efeito da morfina". Marcus Messner é o narrador. A Guerra da Coreia (1951-1953) é o cenário.


Messner é um rapaz judeu de 19 anos, filho único de talhante, aluno brilhante, primeiro elemento da família a ingressar no ensino superior. O rapaz de quem se espera e a quem se exige nada menos do que ser o melhor. Em tudo. Mas o que pode esperar-se de um rapaz para quem "indignação" é a sua palavra preferida e que consegue citar, de cor, o discurso de Bertrand Russel, "Porque não sou cristão"? Antes que essa exigência paternal, impregnada de exagerada protecção, o asfixie, ele decide trocar Robert Treat, ao pé de casa, pelo Winesburg College, na zona rural do centro-norte do Ohio, a uma distância que o pai - amado, mas enlouquecido e enlouquecedor - não poderia percorrer com facilidade. De repente, quase faz lembrar a história verídica - e aguda! - de Christopher McCandless ["O lado selvagem", Jon Krakauer], mas essa impressão desvanece-se quando a história avança. E avança depressa, porque o livro é pequeno e lê-se de um penada.


Indignação cruza a guerra lá fora e o quotidiano no seio de um universo académico retrógrado e ditador. E como um pode influir no outro. Cruza a tentativa de o Poder poder cercear a liberdade - física e mental - e o contrapoder da convicção e das hormonas em plena juventude (há sexo, claro, estamos no planeta Roth!). O sagrado e o profano, seja lá o que for um e o outro. Podia ser uma história quase banal. E no entanto, é tudo menos isso. É Roth, de dedo indicador esticado, a denunciar-se no seu absoluto melhor.

Mia Couto: Jesusalém


Há uma voz que nos acompanha, como um guia, durante a viagem a Jesusalém e nos persegue, como um fantasma, muito para lá do fim da viagem. Não é a voz de Mwanito, o pequeno afinador de silêncios, com vocação para não falar, crescido num lugar que não existe, essa voz sem mancha, imaculada, sem infânci nem memória da vida real. O rapaz que não sabe o cheiro da mãe, nem sequer o que fazer para saber sonhar. Que aprende a escrever na terra para depois fazer de um baralho de cartas e de um punhado de dinheiro o seu diário. Não é a voz revoltada do seu irmão Ntunzi, o rapaz agrilhoado pela falta do mundo que o obrigaram a deixar, o real. O menino-homem que desenha uma estrela por dia num muro, uma estrela por cada dia de exílio. Nem sequer é a voz do austero pai Silvestre Vitalício, o verdadeiro fugitivo de tudo o que é vida para evitar a memória da morte. O homem que acredita que se esconder os filhos do mundo, ninguém no mundo os poderá magoar. O homem para quem "o passado era uma doença e as lembranças um castigo". O homem que coloca fato e gravata para se enamorar de uma jumenta. Também não é a voz de Marta, mesmo que seja dela a voz que mais comove, a voz do desespero de quem se procura no amor que a traiu e só se reencontra quando definitivamente o perde. É a voz da consciência. Jesusalém, que é afinal só um lugar recôndito e rebaptizado em Moçambique, é a história de quem recria o mundo para fugir da dor. A história de todas as vezes que podemos morrer numa só vida.
Na contracapa deste livro de Mia Couto está escrito que esta é "seguramente a mais madura e mais conseguida obra do escritor" e é bem capaz de ser verdade. É quase impossível pousá-lo depois de se ter pegado nele. E é humanamente impossível não sentir arrepios. E lágrimas a queimar nos olhos. Jesusalém é sobre o que nos persegue, sobre o que não é possível enterrar, sobre o que prevalece sempre. É sobre a impossibilidade de fugir disso mesmo que se viva num bunker e a tudo se dê nomes novos. É sobre o amor, que "vicia mesmo antes de acontecer" e sobre a luta cega para o preservar: "Durante anos, aplicara-me em maquilhagem, dieta, ginástica. Acreditara ser o modo de te continuar cativando. Só agora entendi que a sedução mora em outro lugar. Talvez no olhar. E há muito que eu deixara esmorecer esse olhar incendiado." Sobre a doença que é a saudade ("A saudade pode ser uma repentina estiagem na boca, um lume frio na garganta?"), sobre perda e despedida ("Em criança não nos despedimos dos lugares. Pensamos que voltamos sempre. Acreditamos que nunca é a última vez."). Sobre reencontros ("Reencontramos os nossos amores num próximo luar. Mesmo sem lagoa, mesmo sem noite, mesmo sem lua. Dentro da luz, eternos, eles regressam..."). E mais.
Jesusalém é essencialmente uma história de amor, uma história de amor contada de uma forma altamente improvável e mágica, uma história de amor com tudo o que no amor magoa e mata. Amor entre dois irmãos, entre um pai e dois , entre um homem e um animal, entre amantes, entre um homem e uma mulher que morreu de morte escolhida, entre uma mulher e um homem que a abandonou.
Ainda por cima, todos os capítulos começam com poemas, escolhidos a dedo, de três senhoras que merecem ajoelhamento: Sophia de Mello Breyner, Hilda Hilst e Adélia Prado.