sexta-feira, dezembro 22, 2006

Cultura da camioneta

No controverso processo de concessão do Teatro Rivoli a Filipe La Féria existem inúmeras perguntas às quais seria importante dar respostas. Respostas que Rui Rio não deu e ameaça nunca vir a dar. Mas hoje, no programa "O dia em análise", no Porto Canal, Agostinho Branquinho, deputado do PSD, sócio e braço direito de muitos anos do presidente da Câmara, no fundo, o seu zorro de capa-e-espada, sintetizou, com invulgar eloquência, o objectivo desta espécie de concurso público. Passo a citar, eventualmente cedendo à imprecisão formal da memória, mas sem desvirtuar o sentido. "Filipe La Féria faz com que muitas camionetas se desloquem de todo o país para assistir aos seus espectáculos. E isso, não tenhamos dúvidas, é fundamental para animar a Baixa".
Restam dúvidas sobre os critérios de selecção? É a verdadeira cultura da camioneta! Sendo que "cultura" foi termo que Branquinho nunca utilizou, substituindo-o sempre por "animação". Residirá aqui um dos principais equívocos do processo: a confusão grave entre os dois conceitos. À Câmara pouco importa se existe cultura, se ela desempenha um papel efectivo na vida das pessoas, se contribui para o real desenvolvimento de um território (físico e mental); à Câmara só importa animar a malta! Até podia ser com cãezinhos amestrados!
[Agostinho Branquinho foi um dos administradores da Casa da Música no reinado de Manuel Alves Monteiro. Por ser Natal, e só por isso, resistirei à tentação de falar sobre esse período e sobre o entendimento, já então demonstrado, que o séquito de Rui Rio tem de cultura.]

Estrela cadente

Há silêncios que não são exactamente silêncios. São só silêncios para não doer. Para não lembrar. Ainda somos uma estrela cadente. Em pause.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Os resistentes

Esta ideia de os jornalistas do Porto serem uns resistentes poderá ser vagamente romântica; mas depois, na prática, não podia ser mais deprimente. Sem visibilidade, sem mercado de trabalho alternativo ou complementar, e longe do centro das decisões todas do país estão condenados a viver numa espécie de sub-campeonato, alimentando, nos dias de maior inquietude, a esperança - que sabem quase falida -, de que um dia alguém, por um qualquer acaso do destino, tropece neles e lhes estenda uma possibilidade, uma só para mostrarem que podem ser tão bons como os outros. Que provavelmente são.
Entretanto, nesse compasso, o mundo - o deles -, fica reduzido a uma miniatura: aos pecadilhos de sacristia, às tricas de uns palhaços que mandam numa coisa qualquer e às pequenas glórias de outros. Sempre a uma escala à qual às vezes de habituam e que parece até fazê-los felizes. Mas nunca faz. Adormece só. Como um analgésico para a dor de um dente furado.

Homem invisível

A propalada demissão de Fernando Almeida da vereação da Cultura da Câmara Municipal do Porto, eventualmente seguida da publicação do clássico livro de memórias - tão em voga -, levar-me-ia a nutrir por ele algum respeito. Mas temo que até para se demitir tenha que obedecer aos timings estipulados por Rui Rio.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

"À primeira vista"

Post-it

Vinicius de Moraes escreveu que tinha amigos que não sabiam o quanto eram seus amigos. Que não percebiam o amor que lhes devotava e a absoluta necessidade que tinha deles. Nem sabiam que a sua vida dependia da existência deles. Mesmo que não os procurasse. Bastava-lhe saber que eles exitiam. "Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso dizer-lhes o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar", explicou.
"E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários. De como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu tremulamente construi, e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida. Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo!" (...) "Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos".
Lembrei-me instantaneamente deste texto quando recebi um bilhete de "amor-ódio". Que entendo, mas que não evita a tristeza. De que forma se prova o amor na ausência? E, de facto - reconheço -, para que serve a prova se ela não se materializa no quotidiano?
"Tenho fotos tuas na parede da casa que ainda não conheceste. Há ciclos de amor-ódio. Esperámos-te. Quase nunca vieste, quase nunca disseste, quase nunca quiseste ou lembraste. Perguntamos: quem és tu? E onde ficas no presente-futuro ou nas fotos?... Alimentar a tua presença de olhar as fotos como se de uma defunta se tratasse não é verosímil, sendo até imbecil, porque é sobretudo imbecil e ou estranha esta distância que nos separa. Respeitamos-te! Não há problema nenhum com as tuas opções; apenas com a ambiguidade. Desejamos-te o melhor. Afinal, de tudo, incluindo já a tua sms, pergunto-me quantas formas há de comunicar, de estar presente?"

Escolhas do ano

Na recta final do ano, partilho os melhores momentos passados a ver, a ler, a ouvir...

Peça de teatro: Pillowman e Plasticina
Concerto: Antony and Jonhsons, no Teatro Circo, em Braga. E depois, alguns furos abaixo, Baby Dee, na Casa das Artes, em Famalicão; !!! (chk chk chk), na 14ª edição do Festival de Paredes de Coura; Final Fantasy, também na Casa das Artes, em Famalicão; e Undertow Orchestra, na Casa da Música, no Porto.
Livro português: "A casa quieta", de Rodrigo Guedes de Carvalho (que não é de 2006, mas é quase); e "Lume sobre cinzas" , de Raul Brandão. Num âmbito completamente diferente, também a "Anamnese".
Livro estrangeiro: "A minha mulher", de Anton Tchekov; "Saudade", de Ortega Y Gasset (que também é quase-quase deste ano); "O vento", de Claude Simon; "Gente Pobre" de Fiódor Dostoiévski (notável colecção das obras do autor na Editorial Presença); e "Várias vozes", de Harold Pinter.
Filme português: Confesso que só vi o Pele, de Fernando Vendrell. Vale o que vale.
Filme estrangeiro: Little Miss Sunshine e Children of men.
Exposição: Frida Kahlo, no CCB, em Lisboa; e serigrafias da Paula Rego na Galeria 111, no Porto, World Press Photo.
Canção: Blue world still be blue, dos Guillemots.

terça-feira, dezembro 19, 2006

MEC, o verdadeiro


Ontem, na Fnac, procurei o novo livro de Pedro Paixão, "Asfixia", porque me tinham dito que continha uma crónica dedicada a Miguel Esteves Cardoso. E é verdade. Está lá. Será talvez a única coisa que se aproveita das várias dezenas de páginas.
Pedro Paixão diz que tem saudades dele, do seu génio, do seu riso, do seu lado insuportável. De quando passavam os domingos à tarde a escrever. E de como acreditavam que a literatura os haveria de salvar. Não lhe perdoa que tenha casado com a mãe do seu filho. Diz que tem saudades de o abraçar só mais uma vez e que espera um dia ver publicados todos os textos que lhe guardou do computador da casa que durante muito tempo partilharam. E que ainda possui.
A crónica comoveu-me. Comecei a ler o Paixão por causa do MEC. Deixei de o ler quando percebi que a loucura de um estava a milhas da estultícia do outro. Nunca deixei de ler o MEC. Nem mesmo quando reuniu para publicação as crónicas que durante tanto tempo fui guardando como pedras preciosas. Nem quando, como o próprio disse esta semana ao DNA, numa entrevista notável, começou a ser "mais difícil ser diferente".
É inegável: há mesmo uma geração MEC. A geração de quem, como eu, quis começar a escrever por causa dele. Como ele. Por muito que ele já não seja o que foi, será sempre a causa de tudo. Na Assírio & Alvim acaba de publicar "A minha andorinha".

Big Ben

Andamos perdidos pelas ruas da cidade até de madrugada. É sempre assim, mas continuamos a ser dois estranhos. Já não há bares abertos. Só o Big Ben. Vamos lá à procura dos travestis e das putas que prometeste voltar a fotografar. Mas nem eles (elas) povoam a noite. Pelo menos, a noite que conseguimos ver. Dizes que está mais frio do que o frio que realmente está. E dizes a tremer que o Porto é a Sibéria. E que tens saudades do Rio e de Buenos Aires. Do sol e dos banhos gelados. Também não há amendoins. Nem pipocas?, perguntas. Não, nem nada quentinho. Comes um pacote qualquer de qualquer coisa que não comias desde os 12 anos. E bebes o terceiro gin tónico.
Pareces um menino pequenino a falar com os homens carecas pousados no balcão. Eles dizem que ainda podiam estudar, se quisessem - mas não querem. E que também não querem trabalhar porque o rendimento mínimo deixa-os acordar às horas que lhes apetece e chega para emborcarem umas cervejas. Vais dizendo a tudo que sim com a cabeça. E pouco depois já dou contigo a apertar-lhes a mão e a desejar-lhe um feliz natal. Logo tu, que tens vontade de assassinar os bonecos vermelhos e gordos que nesta altura assaltam as varandas das casas quase todas.
Como sempre, contas catrefadas de histórias das tuas viagens: de Moscovo e da máfia que te salvou a vida para se declarar a seguir; de Barcelona, onde viveste até aos cinco anos, de Edimburgo apalpado de comboio, de Amesterdão. Da viagem cancelada a Paris e ao Congo, por razões diferentes. E a Cuba, para veres a morte de Fidel Castro a partir da praia. Como sempre, rendo-me às histórias. À paixão com que falas gesticuladamente de tudo. E tudo inclui sempre trabalho, as notas que escreves nos blocos para não te esqueceres das ideias, os locais que conheces desde sempre e para onde transportas depois figuras para encenações que, no início, só tu tens a certeza que vão funcionar.
Garantes que não és obcecado por isso, que não és refém das expectativas que existem sobre ti, mas reconheces que não te sobra muito tempo. Sobretudo muito tempo para estares presente ao lado de alguém. E que será por isso que agora perdeste o dinheiro do bilhete de avião e do hotel que nunca marcas com antecedência e do carro que nunca alugas, mas que desta vez quiseste marcar e alugar. "Como uma pessoa normal". É nesse momento que sei que estás mais triste do que aquilo que dizes estar. Mas tu desvalorizas. Dizes que só não vais porque está frio. E tu não gostas de frio. "É melhor pensar assim, não é?"
Leslie Feist do concerto que perdeste calou-se-se. "I don't need to know your favourite aunt's name; I don't need to know what woman's felt the same; I don't need to see you every single day; But I'd like to". Hoje sou o homenzinho e devolvo-te intacto ao hotel. Continuaremos a ser dois estranhos.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

The big question

Que favor deverá Rui Rio a Filipe La Féria?!

Rui Rio e o Rivoli

Sábado. 18 horas. A Câmara Municipal do Porto emite um comunicado a dar conta do que já se supunha, pelo menos, há seis meses. Supunha-se tanto que achei que nunca fosse verificar-se. O Teatro Municipal Rivoli, restaurado e equipado há cerca de dez anos com dinheiros públicos para, supostamente, cumprir um projecto específico será gerido, a partir de Maio de 2007, e durante quatro anos, por Filipe La Féria. A peça de estreia será um musical dedicado a Carmen Miranda. O encenador e produtor de Lisboa abraçará a responsabilidade de fazer a Baixa portuense mexer.
Três dias antes do anúncio, veiculado, como habitualmente, pelo site da autarquia, Florbela Guedes, assessora de Rui Rio, jurava ao JN que o processo ainda não estava fechado. Nem poderia ser levado à reunião camarária de terça-feira, dia 19, porque os vereadores, justificou, teriam que receber a documentação correspondente até quarta-feira da semana anterior. Sem processo fechado não havia papelada para entregar. Nem nada para discutir.
Apesar disso, nesse mesmo dia, Manuel Teixeira, chefe de gabinete de Rui Rio almoçou em Lisboa com La Féria e a sua equipa. Pessoas ligadas à empresa do produtor afirmaram que a Câmara havia feito exigências técnicas que eles não tinham condições de cumprir. Ainda assim, La Féria ganhou. Já antes a Câmara havia duvidado da liquidez financeira da empresa "Bastidores". Ainda assim, La Féria ganhou. A Câmara, cuja política diz orgulhosamente pautar-se por números de audiência, já em 2005 tinha apoiado La Féria em dois espectáculos ["Rainha do ferro velho" e "A menina do mar"] apresentados no Teatro Sá da Bandeira. Um deles foi cancelado por falta de público. Ainda assim, La Féria ganhou. Rui Rio, depois de ter dado (a fundo perdido?) 100 mil euros em compra de bilhetes a La Féria para as peças referidas sugeriu-lhe ainda que ocupasse o Cinema Batalha, já sob a exploração de Luís Montez, que rejeitou por ser demasiado pequeno.
Mas à terceira foi de vez. Rio Rio conseguiu trazer La Féria para o Porto. Ele e a sua comissão independente, constituída por Álvaro Castello-Branco, Raul Matos Fernandes e o próprio Manuel Teixeira. Como se vê, independente e ligadíssima à cultura! Nada contra La Féria no Porto. Tudo contra a falta de correcção das pessoas. E sobretudo contra a falta de honestidade de pessoas como Rui Rio, que não cansa de afirmar a sua seriedade. Rui Rio não é sério. Não é honesto. Não é correcto. Não é verdadeiro. Se dúvidas ainda pudesse haver, o processo Rivoli é absolutamente revelador da sua falta de carácter. Os outros candidatos ficaram a saber pelos jornais que perderam. Nunca hão-de saber porquê.
Pela primeira vez compreendi o discurso, que sempre me incomodou, dos "braços caídos", da "derrora antecipada" proferido repetidamente há uns meses, por um vereador socialista. Perderam todos os que defendem e acreditam numa cultura da linha da frente. E perderam todos aqueles que, como eu, ingenuamente, acreditaram que vale a pena discutir, espernear, esgrimir argumentos. Mas nenhum de nós perdeu a dignidade. Isso será sempre mais importante.
No dia em que me perguntarem que livro estou a ler, saberei responder, no mesmo milésimo de segundo, os dois ou três que me acompanham sempre. No dia em que me perguntarem qual foi o último concerto ou peça de teatro a que assisti, saberei igualmente responder com rapidez. Nunca direi que a pergunta é "difamatória".
Rui Rio continuará a rir... até ao despenhamento total da cidade.

domingo, dezembro 17, 2006

Maria de Buenos Aires


Foi hoje a última récita de "María de Buenos Aires", no Teatro Nacional S. João, no Porto. Com a música apaixonante de Astor Piazzolla, texto notável de Horacio Ferrer e direcção musical de Rui Massena. Adorei!

sábado, dezembro 16, 2006

Uma espécie de debate

José Manuel Dias da Fonseca, presidente do Conselho de Administração da Casa da Música, no Porto, lamenta que "a cidade trate mal os seus heróis". A violoncelista Guilhermina Suggia, o poeta Eugénio de Andrade ou a pianista Helena Sá e Costa são apenas alguns exemplos de prova.
Ricardo Pais, director do Teatro Nacional S. João, lamenta que a autarquia trate mal os artistas. "Ninguém pode ser acusado de não ser um grande artista por não ter muito público". Aliás, argumentou, "os números das audiências são sempre escabrosamente manipulados, porque a Câmara não tem capacidade analítica".
Os responsáveis por dois dos mais importantes equipamentos culturais do Porto foram os convidados do debate "Quantas peças à procura de um actor?" , realizado anteontem à noite na Universidade Católica, subordinado à política cultural da cidade e moderado por Manuel Carvalho, director adjunto do "Público". Mas o encontro, o último da quarta edição do ciclo de conferências "Olhares cruzados sobre o Porto", promovido pela Católica e pelo "Público", não foi tão elucidativo como seria expectável.
As questões do moderador - Qual é o papel dos privados, das autarquias e do poder central na dinamização cultural de uma cidade? Qual é a tendência da vida cultural do Porto a médio prazo? Que modelos deveriam ser seguidos para a afirmação do Porto? A cultura é um instrumento de competição entre as cidades? - ficaram quase sem resposta. Os dois oradores foram evasivos, optando por dissertar sobre as experiências de sucesso de cidades europeias como Berlim, Helsínquia, Londres ou Viena, onde a cultura determina a dinâmica do turismo.
Mas a ausência de soluções já estaria antecipada na plateia, curta, ensonada e desprovida de agentes culturais. O público, maioritariamente constituído por pessoas com uma média de idades de 50 anos, levantou, apenas, duas questões. O moderador havia disponibilizado três séries de três perguntas cada.Dias da Fonseca e Ricardo Pais estiveram em sintonia na aversão à "animação cultural". "A animação resulta muito da conjuntura faz-se quando há dinheiro; desaparece quando não há. Temos que apurar mais o lado estrutural do que o conjuntural", avançou o responsável pela Casa da Música.
Ricardo Pais corroborou: "Detesto a animação cultural. O Porto 2001 serviu apenas para fazer o saneamento básico: colocou de pé coisas enormes como a Casa da Música, mas faltou a rede de distribuição de informação que é devida às companhias de teatro da cidade e a outras estruturas. É curioso", acrescentou, "falar-se em subsídios quando os subsídios não chegam sequer para fazer face às despesas correntes". Paralelamente, instituições maiores, como Serralves, por exemplo, têm sido sempre poupadas à contenção financeira. "Tenho medo que se transformem em ilhas de um lago sem água, absorvendo de tal maneira a atenção, que se esgote ali a vida cultural de uma região", concluiu Dias da Fonseca.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Carta aberta

Exmo. Sr. Fidel Castro,
Escrevo apenas para pedir encarecidamente que se aguente a respirar mais uns meses. Há vários anos que adio a minha viagem à sua Cuba. Tinha tudo preparado para a visitar em Janeiro, mas um imprevisto obrigar-me-á a adiar o périplo mais uma vez. O seu tempo, bem o sei, está a esgotar-se; e com o seu o meu também. É o meu que me preocupa. Sei que entende e aprecia este egoísmo, porque foi essa lógica que praticou a vida inteira.
Estou certa também de que compreenderá que tenho este desejo de conhecer o país antes da sua morte, ou seja, antes da libertação do povo que aprisionou sem dó nem piedade em nome do que julgou ser uma heróica revolução social. Foi tudo pelo povo, eu sei. Os exilados sairão, finalmente, à rua; os milhares de conterrâneos que assassinou, infelizmente, já não poderão regozijar-se com o seu fim.
Sempre gostei de conhecer o antes e o depois de tudo. E interessa-me analisar o comportamento das pessoas antes e depois do direito à liberdade e à liberdade de expressão; antes e depois de um regime que aplica a tortura e a pena de morte; antes e depois da miséria a que foram condenados enquanto o senhor possui uma das maiores fortunas do mundo. Interessa-me também, confesso, ver os rosto daqueles que o seguiram a admiraram. Darão esses soldadinhos de chumbo seguimento aos seus ideais?! E quero muito levar livros ao seu povo; mais livros do que pão. Literatura não sujeita a censura, entende?
Não sei se a História o absolverá. A histeria manifestada por estes dias aquando da morte de Augusto Pinochet, no Chile, faz-me crer que não. E pessoalmente espero mesmo que tal não aconteça. E que apodreça nas terra o mais depressa possível. Veja lá o que pode fazer por mim. Só lhe peço mais uns meses.
Sem outro assunto,
helena.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

"Eu, Maria Madalena"


E eis que Maria Madalena, quiçá iluminada pelo espírito natalício, percebe que mandar bater em meninos é mau e feio e pede às divindades da justiça portuguesa a expiação dos seus pecados e o perdão. Será o Ministério Público tão condescendente com a prostituta arrependida como o foi Jesus Cristo? Será este o conto de Natal dos tempos modernos?

domingo, dezembro 10, 2006

"Eu, Carolina Salgado"

Não há nada na história publicada esta semana por Carolina Salgado que não seja absolutamente repugnante. Como portista lanço já um repto ao FCP para que proíba a dita senhora de entrar no Estádio do Dragão. Mas isso será, apesar de tudo, o que menos importa.
O que me choca no livro que custa onze euros e cuja primeira edição de oito mil exemplares parece já estar esgotada? Antes de tudo que a D. Quixote, supostamente uma das editoras mais reputadas do país, que alberga escritores como António Lobo Antunes ou Rodrigo Guedes de Carvalho, tenha aceite publicar a obra. Ceder ao lixo é ser lixo. E, pessoalmente, não voltarei a contribuir com um único tostão para a prosperidade da empresa.
Depois, num país (à semelhança de muitos outros, é certo) onde se sabe que qualquer morcão pode escrever e publicar o que lhe passar pela cabeça - recordem-se os exemplos das criaturas do Big Brother - choca-me a facilidade da instituição desta cultura em que os livros tendem a substituir-se aos tribunais para denunciar comportamentos e condenar pessoas. Para quê recorrer às instituições próprias, com a discrição que exigem, quando se pode ganhar dinheiro com a denúncia e ainda acalentar a esperança de ser considerado uma espécie de herói nacional? No mesmo país (por oposição a muitos outros) onde a cultura é vista como um sério inimigo a abater já não me surpreende, embora me provoque náuseas, que o povo vá a correr comprar a coisa.

Estou pouco interessada em saber se Carolina Salgado é ou foi uma puta. De primeira classe ou de classe nenhuma. Como estou pouco interessada em saber se Pinto da Costa aprecia esse tipo de escumalha. Puta ou não, Carolina é claramente escória. Porque só a escória não sabe estar à altura da sua própria privacidade e, infinitamente pior, da privacidade dos outros. Os relatos, paupérrimos, que vi transcritos nos jornais, da flatulência do presidente do FCP, dos bilhetes de amor que escreveu ou da sua higiene íntima deviam ser punidos por lei.

A mulher que agora se lembrou que é "mãe acima de tudo", uma mãe a lutar pela honra dos filhos - coitados!... -, bem como as pessoas que a estarão a instrumentalizar, deviam acabar no mesmo local onde eventualmente desejam que Pinto da Costa vá desaguar. Por co-autoria dos crimes, claro, mas também por existirem.

Quiz VI

Alguma vez estaremos preparados para tomar conta de quem sempre tomou conta de nós?

sábado, dezembro 09, 2006

Paula Rego na Galeria 111


Sabem a pouco as serigrafias de Paula Rego que estão patentes na Galeria 111, no Porto. Mas vale a pena passar por lá.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Mário Soares - 82 anos


"Tudo o que fiz foi com simplicidade, sem nunca desejar ocupar lugares, mas com a ideia de servir os portugueses e Portugal".

terça-feira, dezembro 05, 2006

Amizade (?) II

Os amigos, crianças que nos viram crescer e cresceram connosco, lado-a-lado, que partilharam sonhos e ideais comuns, que partilharam momentos de tristeza, de extrema alegria, de evasão. Os amigos que eram os nossos melhores amigos, mesmo!, a nossa crítica de excepcional competência, que andavam connosco pela mão. Os amigos que eram o nosso ideal e de quem éramos ideal também. Os amigos, crianças com quem partilhámos gestos, atitudes, caminhos de futuro. Os amigos que eram para nós o que o sol é para a vida. Os amigos, esses, de verdade, espalharam-se cada um por cada canto. E a catástrofe só se percebe quando a vida tende a eternizar-se nas trevas, tranformando-nos numa espécie de reles bola de pingue-pongue amarela: já não pertencemos lá, ao ninho quentinho onde desenvolvemos asas; mas também não pertencemos cá, ao território onde agora voamos. Nunca havemos de pertencer. Mesmo que os códigos exteriores pareçam, por simples mimetismo, cada vez mais aproximados.
Haverá qualquer estranha razão que nos faz - inconscientemente, suponho, ou por mera sobrevivência -, procurar substituir as cadeiras vazias, que nunca ficaram vagas no coração, mas incontornavelmente no quotidiano. Uma vez, duas, dez, cem. Sempre igual. Nunca resulta. E nunca se aprende. As meninas, quando crescem, as que não cresceram connosco, parecem desenvolver uma sórdida mania de perseguição: há sempre alguém que lhes quer roubar os namorados ou os maridos ou o emprego ou a cor de cabelo ou o protagonismo ou as pipocas. Ou a luz do sol. Os meninos, quando crescem, os que não vimos crescer, parecem perder a capacidade de ver as meninas como pessoas: as mulheres são alvo de casamento ou de one-night-stand. É isso ou o vazio.
O leque de hipóteses não podia ser mais desolador. Abençoada a existência de livros e sofás e lareiras e mantas e transportes que nos devolvam ao lugar onde somos felizes.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Amizade (?)

Por que é que amizades (?) assim funcionam melhor se nunca se cumprirem na desculpa da falta de tempo? Porque no início de cada jantar raro, a alegada saudade acumulada e a promessa de que agora-é-que-vai-ser monopolizam a conversa; porque no fim de cada jantar raro, a falta de confiança e de conhecimento do outro obrigam a jurar que desta-vez-é-de-vez. Nunca mais.

domingo, dezembro 03, 2006

Hi5 porcas - the end


Acabou um dos blogues que mais me divertia. O Hi5 Porcas, chegou ao fim. "Tentámos mostrar a Portugal e ao mundo os problemas que afectam hoje as jovens, que merecem ser controladas nos excessos de liberdade, e fizemos sempre com rigor, muito humor, bastante escárnio e por vezes com pena da ignorância de algumas Porcas; mas sobretudo muito profissionalismo e em bom português!", explicam os autores Pig e Porcus, no texto final.
O blogue continha mais do que aparentava. Atrás do inevitável humor está, como eles dizem, "o pior da modernidade e a falta de princípios morais que só um país com uma jovem liberdade conhece. Infelizmente assistimos a um deplorável espectáculo de mulheres fúteis que vendem a imagem do corpo para assim satisfazerem os olhos daqueles que são tão ocos quanto elas".

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Será Rui Rio "tolinho da cabeça"?

Uma entrevista pode não ser suficiente para denunciar a qualidade de um autarca, mas é sempre reveladora do seu carácter, da sua forma de estar e encarar a vida. Sobretudo em televisão, porque o meio em causa, além das palavras, mostra os silêncios, as expressões faciais, o encolher de ombros...
Rui Rio afirmou hoje perante as câmaras do Porto Canal, numa conversa conduzida por Rui Baptista, que perguntas sobre o que está a ler, qual a última vez que foi ao teatro ou ao cinema são "difamatórias"!!! Tão difamatórias que o presidente da Câmara do Porto entendeu que não devia responder. E quando o jornalista lhe recordou que no mandato anterior o havia visto numa ópera, ele encolheu os ombros e torceu os lábios. Sublinhou: "Eu não sou uma presença constante em lado nenhum".
Confrontado com a cláusula - que já não está em vigor porque, pela via das dúvidas, os subsídios acabaram para toda a gente -, segundo a qual qualquer entidade subsidiada pela autarquia estaria inibida de a criticar, esclareceu: "Se eu tivesse feito isso devia ser tolinho da cabeça". Fica no ar a questão: será Rui Rio tolinho da cabeça?! É que a seguir, e depois de condenar os jornalistas, essas malévolas criaturas sempre dispostas a distorcer o teor das suas afirmações - e que, ainda por cima, parecem ter capacidade de influenciar as pessoas do seu próprio partido, uma vez que quase todos os elementos da concelhia manifestaram a sua renitência relativamente à dita cláusula -, sustentou que "quem recebe [recebia, no caso] subsídios pode criticar a Câmara e o seu presidente; não pode é assinar um protocolo e depois virar costas e dizer mal dele ou da instituição". Em que ficamos?
Revelação que Rui Rio se terá esquecido de partilhar durante a campanha eleitoral: "Já tinha germinado na minha cabeça, muito antes de ser presidente da Câmara, que haveria de acabar com os subsídios à cultura. Porque sempre me fez muita confusão essa coisa de toda a gente ir à autarquia pedir um subsídio. Pedem e acham que isso é um direito!", indignou-se. Por isso, a partir de agora, a cultura municipal tem, apenas, preocupações com três estruturas da cidade: Casa da Música (curiosa escolha, por conhecidíssimas razões, mas também porque a Câmara detém, apenas, 13% das acções); Fundação de Serralves (talvez a instituição mais subsidiada a nível nacional); e o Coliseu. E desabafou: "Ó Rui Baptista, não vamos falar só de cultura, pois não?"
Não. Mas antes de mudar de assunto, ainda ficámos a saber que a queixa-crime contra o grupo de pessoas que ocupou, em Outubro, e durante quatro dias, o Teatro Rivoli, foi apresentada pela maioria PSD/CDS-PP em nome de TODO o Executivo, ou seja, também em nome dos elementos da Oposição, porque, explicou "não estava à espera que fosse ligar aos 13 vereadores, pois não? Já viu, se uns gatunos forem assaltar os Paços do Concelho e eu os apanhar, não posso perder tempo a ligar a toda a gente para saber se posso chamar a polícia, não é?"
Ficámos ainda a saber que Eduardo Prado Coelho é uma das "doze pessoas" - assim mesmo, bem contadinhas -, que escreve mal dele nos jornais. No caso do cronista do Público, justificou, "porque deixou de lhe dar dinheiro". O professor e ensaísta foi comissário, a convite de Isabel Alves Costa, do ciclo Capicua, uma iniciativa promovida pela Culturporto, que abordava várias vertentes culturais: teatro, conferências, novo circo, etc. E, tanto quanto me lembro, levou o Porto para os jornais. Lembro-me concretamente da crítica à peça "Valparaíso” de Don DeLillo, encenada por Nuno Cardoso em 2002, sobre quem disse ser o mais promissor encenador da contemporaneidade.
A conversa entre os Ruis, Baptista e Rio, galopou ainda pela empresa do Metro, pela requalificação da Baixa e pelos bairros sociais. Aliás, reforçou o presidente da Câmara, "a poupança brutal da Cultura será canalizada para o que eu sempre disse que seria a minha prioridade: a coesão social". Fiquei a pensar nisto: fiquei a pensar no Bairro do Leal, onde vou de vez em quando, e nas condições em que vivem aquelas pessoas; fiquei a pensar no que sempre me dizem os taxistas quando recusam terminantemente ir ao Bairro S. João de Deus... fiquei a pensar no que quer dizer coesão social.... talvez, baralhar e voltar a dar. Mas sempre de olhos fechados.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Rita Castro Neves


Rita Castro Neves, comissária do extinto Festival Brrrrr - Festival de Live Art - tem patente na Galeria Lab.65 uma exposição de fotografia e vídeo, que vale a pena visitar. Até 2 de Dezembro.

Dr. House


Ex-mulher: Tinhas razão. Continuas a ser o homem da minha vida... És esperto, bonito, sensual...
Dr. House: Mas preferes ficar com aquele que, por dedução, não será o homem da tua vida...
Ex-mulher: O teu principal defeito sempre foi teres a mania que tens sempre razão. A maior qualidade, infelizmente, é que tens quase sempre.
Dr. House: Por que é que escolheste ficar com o teu actual marido?
Ex-mulher: Porque na vida dele há um lugar para mim; porque na vida dele eu não pareço estar a mais.

terça-feira, novembro 28, 2006

Festival de cinema japonês


E outra vez esta inveja de Lisboa. De 4 a 9 de Dezembro, a Culturgest vai apresentar quase cem filmes de cineastas japoneses. Os bilhetes custam dois euros.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Do you wanna dance?


Não há que enganar: Dezembro é o mês das compilações. Ontem recebi o "Mundo" [1993-2006] de Rodrigo Leão, um cd duplo com 27 temas - seis inéditos. Mas ainda não consegui sair da "Pasíon", canção que ouço quase ininterruptamente, há quase 48 horas.

No me olvides
yo me muero
Amor
mi vida es sufrimiento
Yo te quiero en mi camino
Por vos
cambiaba mi destino

Ay,
Abrázame esta noche
Aunque no tengas ganas
Prefiero que me mientas
Tristes breves nuestras vidas

Acércate a mí
Abrázame a ti por Dios
Entrégate a mis brazos.

Tengo un corazón penando
Yo sé
Que vos lo está escuchando
Con mil lágrimas te quiero
Pasión
Sos mi amor sincero

Ay,
Abrázame esta noche
Aunque no tengas ganas
Prefiero que me mientas
Tristes breves nuestras vidas
Acércate a mí
Abrázame a ti por Dios
Entrégate a mis brazos

domingo, novembro 26, 2006

Mário Cesariny (1923-2006)


Tinha medo de pensar na morte. Mas se o desafiassem a pensar nela, nesse fim do caminho, ele respondia que gostava de ter uma morte boa. Uma dessas em que "a gente deita-se para dormir e nunca mais acorda". Mário Cesariny, poeta e pintor, morreu hoje na cidade onde nasceu - Lisboa. Tinha 83 anos. Morreu hoje apesar de ter dito, há dois anos, que já não estava vivo. "Custa-me muito estar vivo, e isso já não é estar vivo", disse a Miguel Gonçalves Mendes, autor do prodigioso trabalho "Verso de autografia" - livro acompanhado de fotografias únicas de Susana Paiva, e filme.
Cesariny - "avião que sobe levando-te nos seus braços, que atravessam agora o último glaciar da terra" - é a representação do surrealismo português. "Eu acho que se se é surrealista, não é porque se pinta uma ave ou um porco de pernas para o ar. É-se surrealista porque se é surrealista". Ele era. Ele é. Sê-lo-á agora mais do que antes. Mais agora, porque é sempre assim quando se morre. Antes, dizia, aplaudiam-no muito, mas depois deixavam-no ir para casa sozinho. Sentia-se sozinho. Ainda mais sozinho desde que lhe morreu a irmã, Henriette, oito anos mais velha e companheira de uma vida inteira. Desde que os cafés passaram a ter televisão aos berros, impedindo-o de ir para lá escrever poemas e conversar com os amigos que apareciam. E desde que deixou de foder. "O outro é o nosso espelho, sem esse espelho não nos vemos. Não existimos. Eu no espelho ou vejo os dois ou vejo o outro, através de mim. Os seres habituais têm necessidade desse encontro".
Ele também tinha. Não acreditava na alma gémea - tinha que ser alguém diferente dele, mais ingénuo, mais puro -, mas acreditava que é possível morrer de amor. No amor, que também procurou, apesar de achar que "a necessidade extrema do outro acarreta o ódio". No amor que encontrou. E perdeu. "O que é que aconteceu ao amor? Ah, eu sei lá". Guarda dele apenas um poema que "alguém publicará".
Cesariny - "carruagem de propulsão por hálito" - não se importava de ser enterrado em Espanha, "que esta porra desta pátria nunca fez absolutamente nada" por ele. O ano passado recebeu duas distinções - as únicas da sua carreira: o Grande Prémio Vida Literária APE/CGD, pelo conjunto da sua obra, e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, que lhe foi entregue pelo então Presidente da República Jorge Sampaio. Este ano viu o seu nome ser integrado na "Anamnese", projecto da Fundação Ilídio Pinho que compila a esmagadora maioria dos artistas plásticos portugueses da década de 90.
Cesariny não sabia o que era a saudade. Mas sabia que a saudade podia "não ser dor". Sabia que tinha saudades de voar. "Quase desde miúdo até aos cinquenta anos, todas as noites já adormecia a sorrir de gozo, porque sonhava sempre que voava, e era uma coisa tão boa, tão boa, tão boa... E depois não havia paisagem, era o espaço puro, não se via nada. Maravilha. Depois, aos sessenta anos, nunca mais sonhei".

Mário Cesariny voltou a voar.

[A maior parte de nós acha que passaria a viver razoavelmente mal se a vida lhe subtraísse, apenas, um número reduzido de pessoas. Mas depois desaparecem pessoas como Cesariny, que nunca vimos senão nos livros, nos quadros... e não consegue evitar-se o vazio, a quase dor... um arrepio a lembrar que esse número de pessoas é maior do que imaginamos.]

Children of men



Duas coisas: apetecia-me que o Clive Owen fosse nosso vizinho e que o Mr. Jasper [Michael Caine] existisse na vida real. De resto, desta vez, as falhas do filme de Alfonso Cuarón saltam à vista, até para pessoas como eu. Mas eu não quero saber. Deixo as críticas para os críticos e fico estacionada nas belíssimas metáforas da história.

sábado, novembro 25, 2006

Off

Tinha cada vez menos vontade de falar. A cabeça nunca estava onde estavam os pés. O coração então era uma entidade completamente autónoma. Um dia deixou de falar. E continuou assim nos dias seguintes até desaprender a voz. Deixou de ter problemas. Se lhe tivessem dito mais cedo que era assim tão fácil...

Loop

Tratava as pessoas como brinquedos. Quando tinha um novo queria sugá-lo até ao tutano. Reaprendia uma noção insuspeita de prazer e conforto. Abria a casa e o coração e sentava-se na cama a falar de tudo pela primeira vez quando a normalidade dormia. Depois cansava-se. Já não era o melhor amigo dele. Não, agora era o melhor amigo do outro. Do próximo.

sexta-feira, novembro 24, 2006

quinta-feira, novembro 23, 2006

Pedro Burmester na Visão

(Foto: Pedro Correia)

Pedro Burmester, director artístico da Casa da Música, em entrevista de Cesaltina Pinto, hoje, à Visão:
(Excertos)
Regressou à Casa da Música. Fez-se Justiça?
(...) Ponderei o regresso, depois de avaliar se poderia ainda acrescentar alguma coisa ao projecto. Orgulho-me de contribuir para o que está a ser: uma casa para todas as músicas, para toda a gente, com várias estruturas residentes.
Confessou várias vezes que esse afastamento lhe doía.
Doía. Doía de saudades. Empenhei-me muito, por isso doía. Tinha uma relação pessoal muito próxima com o projecto. Hoje, é mais profissional, o que é bom para mim e para a Casa da Música (CM).
Foi demitido da administração, depois de ter dado uma entrevista em que arrasou a política cultural de Rui Rio. Agora, temos um director artístico mais domesticado?
Mais sensato. Na altura, sentia-me, de alguma maneira, sozinho naquela luta. Não sentia grande apoio do Ministério da Cultura nem da Câmara e considerava que não estava a ser feito o que devia. Hoje, já não estou sozinho, há uma reflexão, há uma administração capaz, que demosntra perceber bem o projecto. Estou mais sensato e muito mais descansado.
A política cultural de Rui Rio mudou?
Vai inevitavelmente mudar. (...) O Porto tem equipamentos culturais muito bons e uma efervescência criativa grande. Portanto, inevitavelmente, o Porto vai afirmar-se como cidade de cultura. A CM contribuirá para isso.
A cidade cresceu culturalmente, mesmo com um presidente de Câmara sempre em guerra com os agentes culturais?
Pelo menos, fala-se bastante da importância da cultura, o que é bom. É uma oportunidade para pensar como deve ser a nossa relaçao, enquanto agentes culturais e artistas, com o poder. Talvez deva ser mais distanciada, mais profissional...
Mais independente?
Mais independente. O problema de fundo é que o investimento português na cultura é muito reduzido. O orçamento do Ministério da Cultura é 0,4% do PIB, 260 milhões de euros. Bastava duplicar (...) e já se ganhava muitíssimo. Sem investimento a sério, não se fazem coisas.
Há subsidiodependência?
Há subsidiodependência geral em relação ao Estado. (...) Não só em termos financeiros mas também psicológicos. Esperamos sempre que alguém faça as coisas. Temos que ser nós todos a fazer.
O Porto tem uma sociedade civil e empresarial capaz de substituir o Estado?
Tem. A Fundação de Serralves e a CM são provas disso. É inevitável que façamos a regionalização, se queremos desenvolver o país todo por igual. (...) Um país regionalizado será muito mais forte, justo e equilibrado.
Que Casa da Música veio encontrar?
(...) Uma equipa de pessoas muito diferentes, multifacetada e ainda não unida em torno de um objectivo comum, o que é fundamental e só a partir de agora será possível.
A Casa da Música é para o Porto, para o país ou para o mundo?
(...) Recuso-me a ser bairrista, mas primeiro temos que nos afirmar no sítio onde estamos, depois num sítio nacional mais alargado e, finalmente, em termos internacionais. Se o primeiro não funcionar, os outros também não funcionam.
Não tem que apostar também numa programação exclusiva da CM?
O ser exclusivo pode e deve acontecer pontualmente, mas não será uma obsessão. Mais importante é que a CM desafir grupos a lançarem projectos artísticos. (...) Se a lógica for apenas a exclusividade, ficaremos isolados, numa ilha.
Até que ponto está submetido à necessidade de ter público e receitas próprias?
(...) Acredito que a nossa programação é boa, tem qualidade, e se comunicarmos com eficácia teremos público. Podemos e devemos programar coisas de risco, que sabemos à partida não ter a adesão do grande público, mas temos de as comunicar bem, porque acreditamos serem importantes para a formação e educação de públicos. (...) Mas também não tenho qualquer preconceito em programar uma coisa comercial, mas boa.

Quiz V

É possível que quando alguém se aproxima de um jornalista - o amigo que vem de longe, na distância ou no tempo; a criatura que se acabou de conhecer e com quem se simpatizou; a senhora bonacheirona da mercearia que coloca sempre no saco umas tangerinas a mais; o porteiro do prédio que todos os dias amortece a má disposição matinal com um caloroso bom-dia; o empregado do café do costume; o indivíduo que partilhou um cigarro numa noite qualquer e todos aqueles que não integram o núcleo duro da existência individual do jornalista -, é possível, dizia, que algum deles possa genuinamente aproximar-se sem que mais-dia-menos-dia acabe a pedir uma entrevista ou uma notícia ou uma reportagem porque ela, a dita pessoa, ou a prima ou a irmã da prima vai lançar um livro ou um filme ou uma banda ou um projecto ou abrir uma loja ou fazer uma denúncia ou o raio?!

quarta-feira, novembro 22, 2006

Pause



Os pés traídos por umas botas permeáveis à chuva, as mãos roxas de frio, o cabelo a pingar água, a roupa a colar-se ao corpo, a garganta a denunciar uma constipação. E no rosto, o maior sorriso dos últimos dias. O Porto acima da cabeça. É sempre possível ver pela primeira vez tudo aquilo que já se viu mil vezes.

terça-feira, novembro 21, 2006

Rewind

É ainda o cheiro da terra molhada da chuva, este cheiro que quase tem sabor, e o das lareiras que se sabem acesas dentro de casa, das casas todas das ruas por onde não resisto a passar sempre que estou aí, que me devolve as noites inteiras a conversar, a conversar a sério, a rir desalmadamente, a fazer coisas que só nós tínhamos a presunção de saber fazer. As noites dos dias-após-dias em que ignorávamos que existia mais mundo além do nosso. É possível que esse tenha sido já o tempo mais feliz da nossa vida?

segunda-feira, novembro 20, 2006

Gregory Page

A propósito de música, vale a pena (vale mesmo a pena) ouvir "Love made me drunk" de Gregory Page. Subescrevo alguém: O disco "é simplesmente uma obra prima, sem um género bem definido, mas sem dúvida pop/rock, com muitas influências do jazz e da música Francesa".

O mal é geral...


O Centro Cultural de Belém (CCB) decidiu substituir a "Festa da Música" por um evento chamado "Dias da Música", cuja primeira edição, a decorrer entre 20 e 22 de Abril do próximo ano, será dedicada ao piano. O motivo da substituição? O orçamento! A verba para este evento de recurso não deverá "ultrapassar um terço do da anterior iniciativa", explicou hoje à comunicação social António Mega Ferreira, director do CCB.
A ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, já passou a sua bolinha de algodão sobre o assunto: "A programação que temos para o próximo ano é muitíssimo melhor do que aquela que tivemos para 2006". Palavras para quê?!
Se continuasse, a "Festa da Música" iria entrar na sua oitava edição. Se continuasse, iria abordar as influências de algumas das mais importantes escolas de música da Europa. Se continuasse, talvez conseguisse, como este ano, ao fim do segundo dia, esgotar 48 mil dos 52 mil bilhetes existentes. Se continuasse....
Mas, como justifica Pires de Lima, "a Festa esgotava em três dias uma percentagem absolutamente substancial do orçamento do CCB para a programação". E isso, sabemos todos, não pode ser.

Aldina Duarte na Casa da Música


Aldina Duarte é a simplicidade. E a simplicidade desarma. Vi-a, há dois anos, no Senhor Vinho, em Lisboa, a encher, a contagiar a sala. Ontem, vi-a na Casa da Música, no Porto. Pareceu-me uma espécie de peixe fora-de-água. Como se o fado que canta não coubesse numa sala de ostentação. Uma sala preenchida por pouco mais de metade da lotação. Quem estava, estava de corpo e alma. Inteiro. Mas ela quase não falou. Disse uma única vez um "obrigada". Quase sussurrado. Ninguém se importou. Aldina Duarte não precisa de palavras faladas. Houve encore. "Ai meu amor se bastasse". E aplausos de pé.

sábado, novembro 18, 2006

As prioridades de Rui Rio



Rui Rio, hoje, em entrevista ao semanário Sol: "[Além da Segurança Social] era preciso reformar a Comunicação Social". Perante um jornalista que ignora a afirmação e segue em frente, só posso concordar com o autarca.

quinta-feira, novembro 16, 2006

"Cultura com mais peso na economia europeia do que sector automóvel"


[Nota: é um prazer, e um alívio, haver um - pelo menos um - jornal em Portugal que tenha coragem de fazer manchete com Cultura. Não exactamente a cultura do espectáculo; mas a outra, a que a precede. ]
O Público faz hoje manchete com um estudo da União Europeia - "A Economia Cultural na Europa", encomendado pela Comissão Europeia à KEA, European Affairs -, que já tinha sido divulgado por Isabel Pires de Lima, anteontem, na sua fugaz visita ao Porto, apesar de só ontem ter sido apresentado em Bruxelas.
A conclusão, mesmo para quem se move apenas por números, parece não deixar margem para dúvidas: a cultura contribui mais para a economia dos 25 do que os automóveis. O sector cultural e criativo contribuiu para 2,6 por cento do PIB da União Europeia em 2003, mais do que o imobiliário e produtos alimentares e bebidas. Em Portugal, é o terceiro principal contribuinte para o PIB, a seguir aos produtos alimentares e bebidas.
O peso no emprego também é significativo: em 2004 empregou 5,8 milhões de pessoas, o que representa 3,1 por cento do total de empregos na Europa dos 25. E, enquanto o emprego decresceu na UE, aqui cresceu 1,8 por cento. E é um emprego qualificado: 46,8 por cento dos trabalhadores têm pelo menos um curso universitário (contra 25,7 por cento do global e 31,9 por cento em Portugal).
A Economia Cultural na Europa revela que, entre 1999 e 2003, o contributo do sector cultural para o PIB português cresceu 6,3%. Em Portugal, o volume de negócios do sector cultural aumentou a uma taxa média anual de 10,6% entre 1999 e 2003, o dobro da média global da União Europeia - 5,4%.
No retrato mais negro, Portugal é o país com menos universitários a trabalhar no sector da cultura: 31,9%. A UE não consegue encaixar Portugal em nenhum dos três grandes modelos da economia cultural que identifica: não está no modelo britânico (o das indústrias criativas), nem no francês (indústrias culturais), nem no nórdico (economia da experiência). Não é claro se esta ausência tem a ver com falta de dados nas mãos da União Europeia, ou com falta de posicionamento político de Portugal.

Ricardo Pais na Visão

(Foto: Lucília Monteiro)

Ricardo Pais, director do Teatro Nacional S. João, hoje, entrevista de Joana Loureiro à Visão.
(Excertos)
Em tempos, chegou a dizer que detestava biografias. Como é que reagiu a este livro?
(...) Antes de tudo, revejo-me no livro como um objecto de trabalho histórico exemplar. Perspectiva a minha relação com muita coisa – nomeadamente, a crítica e a imprensa – e, principalmente, faz-me acreditar que há um corpus de reflexão paralelo ao meu trabalho. E isso é muito recompensador.
Com este esforço de sistematização do seu percurso criativo, ficou clara a pluralidade de projectos em que já se envolveu, explorando várias linguagens cénicas. Existe um estilo Ricardo Pais? Houve quem já tivesse utilizado o adjectivo ricardopaisiano...
Pois, imagino que sim? provavelmente, isso terá mais a ver com a minha maneira de vestir do que com os meus espectáculos (risos)!
Com os espectáculos também. São apontadas uma série de características marcantes do seu percurso: a imaginação plástica, a importância reconhecida à música, o rigor na direcção de actores, a abordagem global das linguagens convocadas...
Sem dúvida. (...) Há imensas coisas de que me tinha esquecido, verdadeiras monstruosidades ditas sobre trabalhos meus, que me dá muito prazer ver agora reproduzidas. E fiquei também muito admirado com a quantidade de coisas que fui dizendo ao longo dos tempos (risos).
(...) Gosta de polemizar? Falem, bem ou mal, mas falem de mim?
(...) Não tenho particular gosto que falem sobre mim. Tenho este ar meio extrovertido, exibicionista um pouco, e há um lado lúdico e comunicativo nos meus espectáculos que se diria que desejaria pôr-me no vórtice de alguma coisa. Mas preferiria considerar-me periférico ao trabalho em vez de estar no centro dele.
Tem tido, ao longo dos anos, uma relação um pouco tensa com a crítica?
Não é tanto assim. Se, em algum momento da minha vida, respondi de forma mais violenta foi porque as críticas também foram violentas. Ninguém gosta que se diga mal de si, todos nós preferiríamos que houvesse uma generosidade na abordagem do nosso trabalho.
Fala do TNSJ com tanto entusiasmo que até nos esquecemos dos primeiros 20 anos da sua carreira, em que era o «free lancer por excelência»?
Estou morto para voltar a ser free lancer, atenção! Isto é uma prisão!
Uma vez disse que talvez seguisse a carreira de cantor de piano bar?
Adorava! É o artista para quem ninguém olha. E ninguém está a ouvir, o que, para um péssimo cantor como eu, garantiria um grau de protecção extra.
Imagina-se a voltar a trabalhar como actor?
Isso é um problema. Há um projecto marcado para 2008, de muita responsabilidade, dirigido pela Maria de Medeiros. Comecei a ter pânico da memória aqui há uns anos, porque não tenho estudado. Cada vez que me falam nisso, fico muito assustado.
Defende que um artista pode ter uma linguagem de gestão. Disse: «Para muitos ainda, as profissões artísticas não têm a legitimidade de inscrever-se na grande máquina do trabalho – são uma espécie de ócios especializados». Esta frase parece ir direitinha para o Dr. Rui Rio?
Mande-lha! (risos) Isso está correctíssimo, reflecte inteiramente o que se está a passar no Porto e no país. Sempre se pensou que, quando se trata de grandes investimentos, não se pode dar a administração aos artistas. Têm que se chamar os engenheiros ou os economistas. Gostaria muito de saber se, porventura, houvesse um problema na Sonaecom, se me vão chamar a mim para gerir, porque dei muitas boas provas enquanto artista de teatro. Não sei porque é que um bom gestor ou engenheiro têm que vir gerir coisas das artes, quando a cultura não deveria ser mais do que o labor incessante sobre a criação artística, a sua comunicação e a sua sobrevivência.
Caracterizou o contrato de concessão do Rivoli a um privado como um «gigantesco subsídio a fundo perdido?»
E não é? Quem é que não quer ter um teatro daqueles com a electricidade paga, as águas e tudo o resto? Se fosse um privado, quem me dera!
Passou-se de oito para oitenta?
(...) Dar-se uma volta destas, de um dia para o outro, é uma espécie de inconstitucionalidade autárquica. Se o que se pretende é aumentar as receitas do Rivoli, não é porque se entrega a um privado que isso vai acontecer. (...) Um equipamento daqueles, com recursos fabulosos, só se não rentabiliza financeiramente se não se quiser. Cortar-se com um património, altamente respeitável, é de uma violência pela qual um indivíduo tem que ser julgado.
Continua a sentir-se bem no Porto?
Não muito. Neste momento é muito difícil viver culturalmente e trabalhar no Porto. (...) O círculo de afastamento e a reentrada do Pedro Burmester na Casa da Música é absolutamente exemplar do que pode ser a perversão de um percurso administrativo, cultural e programático que era claríssimo.
Acha curioso que os argumentos contabilísticos provoquem tanta simpatia?
Geram simpatia porque a contabilidade está mal feita. Os números estão todos trocados, mente-se por tudo quanto é sítio. Não temos software de gestão, de contabilidade analítica para dizer que um espectador custa “x”. E os números estão sempre a ser vendidos. Se for ter com uma pessoa que está a dormir numa caixa de cartão e disser-lhe que foram atribuídos 20 mil euros a um grupo de teatro para uma produção, é evidente que essa pessoa vai achar que lhe estão a roubar. Mas alguém perguntou à cultura o que acha do que se gasta na saúde e na educação? Algum agente cultural criticou as políticas de apoios atribuídos a outros sectores essenciais? Porque é que a cultura tem que ser o bode expiatório?
Nos primeiros seis meses de 2007, o TNSJ vai co-produzir, com oito grupos do Porto, que se irão apresentar no Teatro Carlos Alberto. Isto é também um gesto de solidariedade?
Sempre foi. A solidariedade com as formas de teatro privadas sempre foi uma das nossas marcas.
Sente-se confortável neste papel?
Não, nada. Estamos a transformarmo-nos, perigosamente, numa espécie de delegação norte do Ministério da Cultura. Gostaria imenso de refocalizar completamente a nossa actividade. Por mim, o TECA deveria ser gerido pelo IPAE, por um organismo de Estado, vocacionado à amostragem sistemática do trabalho independente.

"Começar a acabar" - Beckett


É quase sempre assim: João Lagarto não precisa senão de si próprio para fazer do teatro uma arte maior. Num monólogo, este rigor será mais flagrante. Em “Começar a acabar”, patchwork de textos de Samuel Beckett cozidos pelo próprio dramaturgo e escritor irlandês, com remissões para algumas das suas obras mais emblemáticas – Molloy, Malone está a Morrer, À Espera de Godot, O Inominável, Watt, A Última Gravação de Krapp e Endgame –, o actor, que também é responsável pela tradução e encenação, solta o último sopro antes de morrer.
Num cenário despojado, a luz pardacenta, o figurino gasto, as frases interrompidas, engolidas, a ferrugem do corpo, a expectoração, a ingenuidade dos velhos, a ironia e a auto-ironia indicam o caminho para o fim. Ele sabe que “em breve estará morto, finalmente”. Finalmente, porque a imagem que o espelho lhe devolve já não é a do homem “novo e esperto”, nem a do homem de “raivas repentinas” que lhe transformavam “a vida num inferno”.
O espelho confronta-o agora com a necessidade de ter alguém só para ele, alguém que lhe faça companhia e que finja que o ouve. Que ouça o peso dos dias que passava em frente ao mar a lamber pedras; os dias em que o pai garantia que ele é um “aborto”; os dias em que visitava a mãe, essencialmente para lhe pedir dinheiro. E ouça a carga arrependida dos dias em que preferiu a solidão a um eventual casamento.
São as questões de uma vida inteira a mordê-lo como uma matilha impiedosa que João Lagarto consegue traduzir no palco e sintetizar em pouco mais de hora e meia. As questões de “um indivíduo sempre alerta consigo próprio”. Um homem que poderia morrer hoje se quisesse. Se morrer não fosse demorado. Um homem sem ter onde depositar os seus gritos – como os outros todos. “O ar está cheio dos nossos gritos, mas o hábito é um grande amortecedor”.
A peça, que estreou há dois meses no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, está até domingo em cena, no auditório da Academia Contemporânea do Espectáculo - Teatro do Bolhão, no Porto. Assinala o centenário do nascimento do autor e tem música de Jorge Palma.

Isabel Pires de Lima versão TGV


O problema de algumas pessoas é não saberem dizer 'não'. E não terem a mínima noção do que ganhariam se o soubessem dizer. Isabel Pires de Lima, sem surpresa, é uma dessas criaturas. Lamentou, em Outubro, aos ex-ocupas do Rivoli não poder resolver-lhes/nos o problema - evitar a concessão do Teatro Municipal do Porto a entidades privadas - mas prometeu estar disponível para tertúlias. Seguramente - percebe-se agora -, na esperança de que eles não aceitassem a sua generosidade. Mas eles - azar o dela - aceitaram.
Então, lá veio a ministra da Cultura por aí acima, sem assessores, claramente sem aprovação superior, sem estratégia, sem coragem, sem tempo, sem nada, tentar honrar a palavra, ignorando que nenhuma honra é passível de ser cumprida pela metade. No Cinema Passos Manuel, perante uma plateia de algumas dezenas de pessoas - mais ou menos as mesmas de sempre, é certo -, leu um discurso aos solavancos sobre as apostas futuras da tutela e foi embora.
Foi embora sem ouvir uma única pessoa; uma única ideia; sem responder a uma única questão. Curioso terem dito que seria ela a presidir a sessão... Quem a defenderá amanhã depois da conferência de imprensa de Rui Rio???

quarta-feira, novembro 15, 2006

Sentença

"És uma romântica perversa!"

Santana Lopes - "Percepções e Realidade"

Toda a gente tem necessidade de cumprir os seus lutos; toda a gente, a partir de determinado período, tem necessidade de enterrar a dor, digerir a mágoa, soltar da garganta o nó, e seguir em frente. Pedro Santana Lopes não é excepção. O menino-guerreiro precisava, confessou aos jornalistas, "encerrar um capítulo da sua vida política". É justo.
Num país em que toda a gente publica o que lhe apetece não há razão nenhuma para que o ex-primeiro-ministro mais fugaz da história do país não pudesse escrever um livro a contar a sua versão dos factos sobre a crise política de 2004, que culminaria com as eleições legislativas antecipadas, de onde saiu o sucessor socialista José Sócrates.
A única coisa que me irritou - exclusivamente pelo que li na imprensa e objectivamente não tenho a menor intenção de ficar mais informada, adquirindo o livro -, foi Santana Lopes não ter citado o principal responsável pela situação: Durão Barroso!!! Foi essa a esperança que alimentei nos últimos dois anos. A esperança de que dissertasse um dia sobre o facto de se ter limitado a tentar estar à altura do desafio que lhe tinham colocado à frente. Mesmo consciente das suas limitações. Aí sim, teria ganho o meu respeito. Nunca percebi por que razão o actual presidente da Comissão Europeia - espécie execrável de rato do porão - continua a ser poupado, quando foi ele que abandonou o cargo poucos meses depois de ter assegurado que o cumpriria até ao fim. Quando foi ele que escolheu Santana Lopes. Quando foi ele que assobiou - e continua - para o ar como se nunca nada tivesse passado pela sua cabeça. Culpar Cavaco Silva e Jorge Sampaio é ficar infinamente aquém da ressuscitação política. O guerreiro continua a ser um menino.

"O saque" - Joe Orton

Para Joe Orton, escreveu John Lahr, "nada era sagrado; mas a fúria dos seus ataques, a sua peculiar combinação de alegria e horror, não estava isenta de um motivo espiritual mais abrangente. Orton queria chocar a sociedade e ao mesmo tempo purificá-la. No palco, as suas personagens são animais em acção. E, assim que se vê a fera que existe em cada homem, então a tolerância pode mais facilmente substituir o bem... Ao mostrar como nos destruímos a nós próprios, as peças de Orton também fazem parte de uma táctica de sobrevivência. Ele faz-nos rir para nos fazer aprender. Há uma salvação qualquer nisto".
O que existe em comum entre o dramaturgo britânico - assassinado aos 34 anos pelo amante Kenneth Halliwell, que não suportou o seu súbito sucesso, suicidando-se a seguir -, e Ricardo Pais, encenador de singular unanimidade pública, que ontem estreou, no Teatro Nacional S. João (TNSJ), no Porto, a peça do autor "O saque"? Ambos querem chocar a sociedade? Não sei. Mas ambos querem fazer-nos rir. Não sei se exactamente para nos ensinar ou salvar alguma coisa.

"O Saque" é, como era o "Ubu's", de Alfred Jarry e outras encenações do director do TNSJ, uma comédia. Negra, neste caso. E Ricardo Pais não resiste a querer que nos lembremos ininterruptamente da etiqueta. Usa o burlesco, abusa do absurdo. O resultado, por vezes próximo de uma espécie de revista mais sofisticada, oscilará, naturalmente, de acordo com o juízo e gosto de cada um. Não é o meu registo de eleição. Mas no dia em que o homem que gosta de "sensações fortes" for embora, todos vamos sentir a falta dele.

O Saque, Joe Orton
Teatro Nacional São João, Porto
De 14 a 26 Novembro

Aldina Duarte


Aldina Duarte é uma pessoa especial. Porque sim. E por tudo. E também pelo texto que se segue. Na sexta estará na Culturgest, em Lisboa; no domingo actua na Casa da Música, no Porto.
"Eu quero a alegria profunda que nos ampara para a frente ou para trás conforme o que houver por fazer ou refazer. Em pequena sonhei com uma casa grande e, depois de crescida, encontrei a casa à minha medida, quando sozinha e, noutras alturas, na companhia dos poucos que muito amo. A repetição de tudo o que é intrinsecamente verdadeiro torna-se sabedoria e, por isso, amor maior… quero repetir-me em liberdade e convicção; quero a repetição dos silêncios alheios que me cabem cantar, porque é essa a minha função; quero repetir todas as palavras, a música das palavras é o seu sentido quando enviadas e recebidas por alguém; quero um tempo onde a leitura e o pão vivem na mesma casa, as crianças dançam e os amigos se encontram para descobrir músicas e onde, sem preconceitos, todos se juntam na construção dum mundo mais digno para qualquer forma de vida, fazendo e aprendendo o que for necessário..."

aldina duarte

terça-feira, novembro 14, 2006

Tienes fuego?



aqui tinha dito que sou, com exemplar frequência, a última a chegar às coisas - regra que pareço continuar a cumprir com invulgar precisão. À exposição de 162 dispositivos fotográficos que João Tabarra expôs no Centro de Arte de Santa Mónica, em Barcelona, chego com dois anos de atraso. E por um absoluto acaso. O exercício do artista - fotografar durante não sei quantas horas uma fogueira a arder - não seria motivo de referência se não tivesse tropeçado num maravilhoso texto seu, que não resisto a partilhar. Numa tradução esforçada de espanhol, que foi como o encontrei.

"Propôr acompanhar durante alguns segundos ou minutos uma projecção de dispositivos onde se manifesta e vê um homem a fazer uma fogueira limitando-se a alimentá-la, controlá-la, avivando ou diminuindo as chamas, dramatizando e manipulando em 162 imagens projectadas, momentos repetitivos de quase plena in(acção) é uma ideia que inicialmente me pareceu muito interessante.

Poderia representar um sinal de protesto, um aviso, uma mensagem (De fumo? De fogo?), um pedido de socorro, um acto revolucionário... talvez a proposta utópica de manter o fogo permanentemente aceso; ou, pelo contrário, mantê-lo por necessidade, pelo efeito neanderthaliano de que, quando se apaga, nada haverá que possua o conhecimento necessário para permitir voltar a fazer fogo, nada que conheça o segredo para voltar a acender a fogueira. Isto poderia ser uma metáfora de muitas coisas e talvez seja. Nesta fogueira de vaidades em que vivemos, e na qual nos vemos e revemos imersos, tudo é possível..."

domingo, novembro 12, 2006

Ainda o Antony II

José Miguel Gaspar, no Jornal de Notícias:
Antes de nos espantarmos com um espectáculo que levou para o palco de uma pop de câmara 13 modelos numa maioria de transexuais, é preciso ir atrás para compreender Antony. Antony tem, literalmente, aspirações de transformação de sexo? "Quem não tem?", responde invariavelmente o artista ("New York Daily News", Fevereiro, 2005). "Os transexuais estão entre as mais evoluídas e belas criaturas do planeta".
(...) Antony é das mais belas criações da arte popular contemporânea e usa, justamente, a música para se solucionar. Anteontem passou novamente por Portugal (Theatro Circo, Braga, lotação esgotada de mil espectadores) e provocou um arco emocional que não tem paralelo com nada que se conheça no hodierno quarto da pop capaz de materializar ao vivo a mesma qualidade ouvida em disco. É um homem que canta como uma mulher, que desconcerta diversos géneros artísticos (e dois sexuais) e consegue nessa complexidade superar a linha sempre tão certa quanto impossível que é alcançar sucesso entre a pureza da performance artística e a música comercial. O espectáculo chama-se "Turning" e impressiona.
Primeiro o seu cantor Antony. É uma figura alta e larga e branca metida em vestes pretas; mexe-se numa lenta epilepsia enquanto canta; canta, agudo e lírico, uma limpa dor autobiográfica como esta: "One day I'll grow up, I'll be a beautiful woman/One day I'll grow up, I'll be a beautiful girl" (da canção "For today I am a boy"). E como esta: "I am very happy/ So please hit me /I am very happy/So please hurt me" ("Cripple and the starfish").
Atrás de Antony, na permanente penumbra, há um ensemble de oito, The Johnsons: piano, violino, violoncelo, viola, acordeão, clarinete/saxofone, baixo e bateria. Mas depois, à música que discorre sobre os dois discos que valeram a Antony o Mercury Prize 2005, junta-se a ilustração desse território num grande ecrã de vídeo, com duas câmaras manipuladas pelo artista plástico Charles Atlas há uma plataforma giratória onde se irão instalar 13 modelos, tantas quantas as canções, que subirão uma a uma, lentas, decididas e inseguras, para o patamar da sua vulnerabilidade.
É aqui que o espectáculo se torna complexo - porque provoca a certeza do nó na garganta de quem vê aquelas belas criaturas expostas, maquilhadas, penteadas, pintadas, uma delas de tronco a nu, uma outra tremente e idosa, ali a girar no insuportável horror que é a sua indecisão física, ali despojadas, frágeis e expostas na intimidade de mil. "Turning", coisa capaz de uma catadupa de emoções, é um achado de performance artística. Dizer que tudo aquilo é bravo é dizer pouco.

Ainda o Antony I

Natália Faria, no Público:

Everything is new. As salas portuguesas nunca tinham visto Antony da forma como ele se mostrou, anteontem à noite, no Theatro Circo, em Braga. Por isso, a canção que o músico britânico escolheu para abrir o concerto soou como um aviso. E quem se propunha encontrar rótulos fáceis para descrever o que se passou no palco saiu com uma tarefa dificílima. Não há etiquetas prontas a usar para colar a uma voz que obriga quem a ouve a atravessar para o outro lado do espelho e a aproximar-se da fronteira, para lá da qual o mundo permanece inominável. Everything was new e, ao mesmo tempo, tão secularmente humano, ou não fossem as fronteiras pobres tentativas de arrumação dos monstros secretos que cada um mantém silenciados dentro de si.
(...) Turning porque o andrógino Antony - que surgiu embalado pelo sexteto The Johnsons - decidiu focar-se naquilo que "caminha rumo ao feminino". E cada uma das músicas (...) convocou para o palco um modelo (eram homens? eram mulheres? eram homens a caminho de ser mulheres?) que, sobre uma plataforma giratória, ia rodando perante a câmara de filmar manipulada por Charles Atlas, com os rostos a sucederam-se desfocados e potenciados na tela gigante ao fundo do palco. Noivas virginais, mulheres de seios incipientes desnudados, mulheres carnais à moda de Almodóvar com saias a deixarem espreitar os cintos de ligas e saltos agulha: as musas que se passeiam na música triste de Antony mostraram-se no palco como numa vitrina, vulneráveis e aceitando que nós, pobres mortais, partilhássemos por momentos os territórios de amor e morte onde elas se movem.
O resultado comoveu, porque foi totalmente não-irónico. E, enquanto isso, a voz delicada e agressiva de Antony ia soltando apelos como este "Hope there"s someone/ Who"ll set my heart free/ Nice to hold when I"m tired", do clássico "Hope There"s Someone". E, ao contrário do que aconteceu na actuação de Maio passado na Casa da Música, no Porto, Antony mostrou-se com roupa masculina, sem maquilhagem e sem peruca, embora igualmente desenquadrado do seu corpo, gigantesco e desengonçado, quase infantil nas expressões que se diriam assustadas com o efeito que provocam.
No final, as drag queens acomodaram-se no palco para "You are my sister, com o cantor a puxar novamente os espectadores para os lugares que todos temem, protegidos apenas pela delicadeza que se pode esperar dos outros. Houve carícias quase sexuais em palco, mas ninguém pareceu importar-se com isso. Ou não fosse Antony aquele cuja voz obriga quem a ouve a atravessar para o outro lado do espelho.

sábado, novembro 11, 2006

"Turning" - Antony and the Johnsons

Se soubesse escrever sobre música tentaria explicar de que forma um concerto pode ser terrivelmente comovente do início ao fim. Como não sei, qualquer palavra seria a mais. Estragaria tudo. Foi o concerto do ano. Único e irrepetível.

sexta-feira, novembro 10, 2006

É hoje! É hoje! É hoje!


Antony and the Johnsons e mais vinte performers apresentam hoje, em exclusivo para Portugal, o espectáculo "Turning". É no Teatro Circo, em Braga. Ansiedade em perigosa contagem decrescente.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Quando a melhor Oposição é a que vem de dentro...

(Manuel de Almeida/ Lusa)

Pedro Duarte, actual vice-presidente da bancada do PSD no Parlamento, em entrevista ao JN:

"A imagem, que não é real, que o Porto vende ao país e ao mundo de ser uma cidade de costas voltadas para a cultura, é extraordinariamente negativa e espero que seja rapidamente invertida. (...) Evidentemente que o presidente da Câmara está envolvido nesse contexto e acaba por passar uma má imagem da cidade".

[Se houvesse eleições hoje] "Rui Rio obviamente não seria o candidato do PSD".

Estaremos sós?


O projecto fotográfico “Estaremos sós?” de António Chaves (Porto, 1957) inclui 18 imagens captadas nas cidades de Varanasi e Haridwar, fruto de viagens realizadas nos últimos anos à Índia. A ideia do fotógrafo é partilhar imagens que entende servirem "como calmantes à mente, por convidarem a um estado brando e contemplativo, pretendendo apelar à quietude, à paz de espírito e ao despertar da consciência espiritual de cada um".

Para ver a partir de hoje e até à véspera de Natal. No café Lusitano, no Porto; ou em Braga, no saudoso Deslize bar.

Ricardo Pais. Actos e variedades.

É objectivamente uma edição de luxo.
O livro "Ricardo Pais. Actos e variedades" (326 páginas) acabadinho de editar pela Campo das Letras, escrito por Paulo Eduardo Carvalho e repleto de fotografias propõe-se - lê-se na contracapa -, "recuperar o percurso plural e a diversidade de relações criativas de um dos mais marcantes e singulares encenadores portugueses contemporâneos. As muitas criações cénicas pelas quais foi responsável ao longo da sua carreira surgiram sempre acompanhadas de um investimento, tão lúdico quanto profundamente sério, na exploração e articulação das possibilidades expressivas das várias linguagens que constituem a própria matéria do teatro - o corpo e o movimento, o espaço e a música, a voz e o som, a palavra e as suas diversas formas de reverberação -, com uma especial atenção ao redimensionamento dos recursos do actor. Indissociável desta intervenção criativa tem sido também a sua diversificada actividade como formador e como gestor cultural, eloquentemente demonstrada através da sua demorada experiência da direcção do Teatro Nacional S. João".

Quiz IV

Não é obrigatório que todos os políticos tenham que ser desonestos; que todos os jornalistas tenham que viver desencantados; que todos os artistas sejam loucos! Ou é?

quarta-feira, novembro 08, 2006

"Carta aberta ao presidente da CMP"

Caro Ricardo Alves, claro que Rui Rio pensou antes de falar e fazer as contas. Claro que ele tem exacta noção do que é preciso para encenar uma peça... Basta montar uma bancadas na Boavista, não é?

terça-feira, novembro 07, 2006

Mania da perseguição

Na sequência do fim dos subsídios pecuniários anunciados por Rui Rio na sexta-feira, o Jornal de Notícias, o Público e o Primeiro de Janeiro fizeram manchete com o assunto. Os três diários ouviram também os mesmos elementos da Oposição. Mas a Câmara, como sempre, só leu o JN....

domingo, novembro 05, 2006

Gone with the wind...

Em Junho de 2003, Pedro Burmester, mais visionário do que o próprio haveria de ter imaginado, afirmou ao JN que a Câmara Municipal do Porto estava "mais preocupada com questões, que também têm que ser resolvidas, mas que reduzem o Porto a uma aldeia". Três anos e meio depois, o resultado está amplamente à vista. Impera o deserto e o silêncio. E pior: a total ausência de luz ao fundo do túnel. Existe uma Oposição, porventura demasiado civilizada e decente, mas cujo resultado prático é tragicamente ineficaz. E um bando imenso de pessoas e estruturas que não cessam de pedir desculpa por existir. O resto da população não faz a mais pequena ideia das coisas a que tem direito. Vai ficando para trás e não percebe. E, infelizmente, também não parece haver alguém disposto a acordá-la.
Na sequência da entrevista, o pianista e director artístico da Casa da Música foi insultado por Rui Rio, que o acusou de não ter respeito pela autarquia, exigindo a sua demissão. Alguém, nos piores pesadelos, imaginou que a falta de tacto e de tudo do autarca, quando confrontado com críticas, pudesse verter sobre todos os quadrantes da esfera cultural da cidade? Que pudesse realmente comportar-se como o rapaz da escola que agarra a bola e grita: "Se eu não brinco ninguém brinca!" quando não o deixam jogar na posição pretendida?! Na altura, Jorge Sampaio, então Presidente da República, saiu, e muitíssimo bem, em defesa de Burmester. Por que raio agora não há ninguém de Belém ou do gabinete do primeiro-Ministro ou do Ministério da Cultura capaz de erguer-se e dizer "BASTA"?! Agora somos todos um bocadinho "burmesters", todos inimigos do rei Rio.
Pedro Burmester, que inicialmente parecia personificar o único ódio de estimação do homem do PSD, saiu da Casa da Música, hibernou durante dois anos e voltou. Rui Rio acabou o primeiro mandato, que iniciou na ressaca do Porto 2001, e foi eleito há um ano para um segundo round com maioria absoluta. Pelo caminho teve três vereadores da Cultura: Marcelo Mendes Pinto, António Sousa Lemos e agora Fernando Almeida - e sim, sinto que cumpro uma espécie de serviço público ao divulgar o nome dos dois últimos senhores. Aliás, aproveito a boleia para dizer que o actual vereador, que nunca ninguém ouviu falar, tem um assessor de imprensa (vá lá saber-se para quê): Rui Gonçalves.
Vale a pena reparar na espiral de Rui Rio: Em 2002 impôs um corte no pelouro da Cultura de 40% - a Rádio Festival nunca foi beliscada; no ano seguinte subiu a fasquia para 60%. O então vereador, Marcelo Mendes Pinto (CDS-PP), foi obrigado a cortar a direito nas colectividades, associações recreativas, desportivas, de solidariedade social e outras, nos grupos de dança e teatro; poupou apenas cinco festivais da cidade. A vida poderia até ter-lhe corrido menos mal, não fosse ter-se dado o caso de ter decidido defender publicamente Pedro Burmester. Ainda conseguiu resistir às ameaças de que no caso de não aceitar retratar-se seria afastado do Executivo, mas na primeira oportunidade saiu, pelo próprio pé, para a Assembleia da República. (Dois pontos para a loucura de Rio: Não aceita críticas de fora - Burmester; nem de dentro - Mendes Pinto).
Ninguém imaginava que pudesse piorar. E, no entanto, piorou mais do que é possível traduzir em palavras. Rui Rio que no calor da vitória das últimas eleições autárquicas prometeu redimir-se da reconhecida falta de atenção prestada à cultura fez tudo ao contrário: primeiro, desfez-se das preocupações que alegadamente lhe daria o Teatro Rivoli; depois inventou uma cláusula, segundo a qual as entidades que o criticassem não teriam direito a subsídio; finalmente, quando percebeu que os "subsídiodependentes" têm mais dignidade do que ele cortou os subsídios a toda a gente. É o rapaz da escola: "Se eu não brinco ninguém brinca!"
(Não sou do Porto; não voto no Porto. Estacionei na cidade há menos de seis anos e, provavelmente, vou embora antes de ter o prazer de ver Rui Rio sair da Câmara. Mas nunca uma situação pública me deixou tão envergonhada. Tão verdadeiramente envergonhada!!! E com tanta pena de todos quantos, na sua imensa ignorância, elegeram para presidente um homem das cavernas, não percebendo que estavam a suicidar-se. Porque não há mesmo nada pior - fica mais uma vez provado - do que o acesso condicionado ao conhecimento.)